Chás para digestão e mucosa gástrica: quais realmente podem ajudar?
Depois de uma refeição, é comum procurar alguma coisa para “acalmar o estômago”.
Um chá de camomila, erva-doce, gengibre ou hortelã costuma aparecer como uma solução simples para aquela sensação de estômago pesado, gases, náusea ou desconforto.
E existe uma boa razão para essas plantas fazerem parte da tradição popular. Algumas delas possuem compostos biologicamente ativos e foram estudadas em pessoas com sintomas digestivos.
O problema começa quando a ideia de “chá que ajuda na digestão” vira “chá que protege a mucosa”, “chá que cura gastrite” ou “chá que cicatriza o estômago”.
São afirmações diferentes.
A mucosa gástrica possui mecanismos próprios de proteção contra o ácido e outros fatores potencialmente agressivos. Quando existe gastrite, úlcera, refluxo ou dispepsia persistente, a causa precisa ser investigada. Em alguns casos, pode existir infecção por Helicobacter pylori, uso frequente de anti-inflamatórios ou outra condição que não será resolvida com uma xícara de chá. Diretrizes para dispepsia recomendam investigação e tratamento da causa quando indicado, incluindo teste para H. pylori em determinadas situações.
Então, quais chás podem realmente ajudar?
E existe algum que tenha evidência de proteger a mucosa gástrica?
É isso que vamos entender.
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| Foto por Vlada Karpovich / Pexels |
Antes de escolher um chá, precisamos entender o que está acontecendo
“Má digestão” não é um diagnóstico único.
Você pode estar falando de sensação de estômago cheio depois de comer, saciedade precoce, estufamento na parte superior do abdômen, arrotos, queimação ou dor na região do estômago.
Esse conjunto de sintomas pode aparecer na chamada dispepsia.
Na dispepsia funcional, não existe necessariamente uma lesão visível no estômago que explique os sintomas. Alterações na movimentação do estômago, na percepção dos estímulos digestivos e na comunicação entre intestino e cérebro podem participar do problema.
Por isso, uma pessoa pode ter sintomas importantes mesmo sem apresentar uma “ferida” no estômago.
E isso também explica por que simplesmente procurar um alimento ou chá “para proteger a mucosa” nem sempre resolve a questão.
Chá para digestão funciona?
Algumas plantas apresentam resultados promissores para sintomas digestivos, especialmente quando utilizadas em preparações padronizadas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022 reuniu 49 ensaios clínicos randomizados, envolvendo quase 7 mil pessoas com dispepsia funcional. No conjunto dos estudos, preparações à base de plantas apresentaram melhora dos sintomas em comparação com placebo. Entretanto, os pesquisadores também destacaram a necessidade de estudos clínicos de maior qualidade para confirmar esses resultados.
Isso é interessante, mas existe um detalhe importante:
os estudos não avaliaram simplesmente “qualquer chá feito em casa”.
Muitos utilizaram extratos, fórmulas compostas ou produtos padronizados em doses específicas.
Portanto, não podemos pegar o resultado de um estudo com um extrato concentrado e afirmar automaticamente que uma xícara de chá preparada com a mesma planta terá o mesmo efeito.
Essa diferença é especialmente importante quando falamos de fitoterapia.
Gengibre: uma das opções mais interessantes para náusea e digestão
O gengibre é provavelmente uma das plantas mais interessantes quando o assunto é desconforto gastrointestinal.
Seus compostos, especialmente gingeróis e shogaóis, podem influenciar a motilidade gastrointestinal e outros mecanismos envolvidos na digestão.
Um pequeno ensaio clínico randomizado avaliou 11 pessoas com dispepsia funcional e observou que uma dose de 1,2 g de gengibre acelerou o esvaziamento gástrico em comparação ao placebo. O estudo também avaliou sintomas digestivos, embora seu tamanho reduzido limite bastante o que podemos concluir.
Uma revisão de estudos clínicos sobre gengibre e distúrbios gastrointestinais concluiu que há evidências mais consistentes para seu possível papel na redução de náusea, enquanto os dados para outros problemas gastrointestinais ainda são mais limitados. Os autores ressaltaram que ainda são necessários estudos maiores e melhor controlados para avaliar o gengibre especificamente como agente gastroprotetor.
Então o gengibre protege a mucosa do estômago?
Não temos evidência clínica suficiente para afirmar isso.
Existem estudos experimentais que sugerem efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e gastroprotetores do gengibre. Porém, resultados obtidos em células ou animais não equivalem a demonstrar que beber chá de gengibre protege ou cicatriza a mucosa gástrica em seres humanos.
Além disso, gengibre não é necessariamente confortável para todo mundo. Algumas pessoas podem apresentar azia, desconforto abdominal ou diarreia com o consumo oral, principalmente em doses maiores.
Se você percebe que gengibre piora sua queimação, não existe motivo para insistir nele apenas porque é considerado “digestivo”.
Camomila: pode ser agradável, mas a evidência para gastrite é limitada
A camomila é tradicionalmente utilizada para desconfortos digestivos e também costuma ser associada a relaxamento.
Existe alguma plausibilidade para seu uso em sintomas gastrointestinais, e a camomila aparece em algumas formulações fitoterápicas estudadas para dispepsia.
Um exemplo é o STW-5, uma formulação composta por várias plantas, entre elas camomila, hortelã e outras espécies. Ensaios clínicos e uma meta-análise encontraram melhora de sintomas de dispepsia em comparação com placebo.
Mas existe uma diferença que vale reforçar:
não podemos atribuir o efeito dessa formulação à camomila isoladamente.
Quando várias plantas são utilizadas juntas, não sabemos necessariamente qual componente contribuiu para o resultado, em qual dose e se o mesmo efeito ocorreria com um chá de camomila.
Portanto, uma xícara de camomila pode ser uma bebida agradável e, para algumas pessoas, fazer parte de uma rotina confortável após uma refeição.
O que não podemos dizer é que ela “trata gastrite” ou “regenera a mucosa gástrica”.
A camomila também não é completamente isenta de cuidados. Pessoas alérgicas a plantas da família Asteraceae podem apresentar reações, e existem relatos de possíveis interações com medicamentos.
Hortelã: digestiva para algumas pessoas, problema para outras
Aqui existe uma pegadinha importante.
A hortelã é frequentemente recomendada para digestão, gases e desconforto abdominal. Existe evidência clínica para algumas preparações de óleo de hortelã, principalmente no contexto da síndrome do intestino irritável.
Isso não significa que chá de hortelã tenha o mesmo efeito.
O National Center for Complementary and Integrative Health destaca que há pouca pesquisa especificamente sobre folhas de hortelã e que não existem evidências suficientes para concluir que elas sejam úteis para uma condição específica.
E existe outro problema.
A hortelã pode piorar azia e refluxo em algumas pessoas. Esse efeito é mais conhecido com óleo de hortelã, que pode provocar ou agravar sintomas de refluxo.
Então, se você tem queimação frequente ou doença do refluxo gastroesofágico, não escolheria hortelã no formato de óleo essencial.
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| Foto por Kai-Chieh Chan / Pexels |
Erva-doce: tradição forte, evidência clínica ainda pequena
A erva-doce é outra escolha muito popular para gases e digestão.
Ela contém compostos bioativos que podem exercer efeitos sobre a musculatura do trato gastrointestinal. Estudos experimentais recentes observaram efeitos da infusão de erva-doce sobre diferentes regiões do estômago, sugerindo atividade relaxante em algumas áreas e efeito sobre a motilidade em outras.
Isso é interessante para entender por que a planta pode apresentar efeitos digestivos.
Só que esse estudo foi realizado em tecido de porquinhos-da-índia, não em mulheres com sintomas digestivos.
Existe também pelo menos um ensaio clínico com anis, uma planta diferente, porém da mesma família botânica, em pessoas com dispepsia funcional. O resultado foi promissor, mas novamente não permite concluir que uma xícara de chá de erva-doce tenha efeito terapêutico equivalente.
Portanto, a erva-doce é uma opção tradicional e relativamente simples para incluir como bebida, mas a evidência clínica específica para “tratar gastrite” ou proteger a mucosa é insuficiente.
E o chá de alcaçuz? Aqui é preciso ter cuidado
O alcaçuz costuma aparecer em conteúdos sobre “proteção da mucosa gástrica”.
Isso acontece porque alguns de seus compostos foram estudados em relação à mucosa e às úlceras.
Existe pesquisa antiga com alcaçuz deglicirrizinado em pessoas com úlcera gástrica, mas os resultados não foram consistentes e alguns ensaios não encontraram diferença relevante na cicatrização em comparação com placebo.
Além disso, alcaçuz não é um chá para ser usado indiscriminadamente.
A glicirrizina presente no alcaçuz pode causar efeitos adversos, especialmente quando consumida em quantidades elevadas ou por períodos prolongados, incluindo alterações da pressão arterial e do equilíbrio de eletrólitos.
Por isso, eu não recomendaria alcaçuz como um simples “chá para gastrite” sem avaliar a situação individual.
Existe algum chá que realmente “cicatriza” a mucosa gástrica?
Até o momento, essa é uma afirmação que eu evitaria.
Existem mecanismos experimentais interessantes para diversas plantas e existem estudos clínicos com algumas preparações fitoterápicas em pessoas com dispepsia.
Isso não equivale a demonstrar que um chá específico regenera a mucosa gástrica em seres humanos.
A mucosa do estômago é uma estrutura biologicamente ativa. Ela possui muco, bicarbonato, fluxo sanguíneo e mecanismos celulares que ajudam a protegê-la. Lesões podem acontecer quando existe desequilíbrio entre fatores de agressão e defesa.
Quando há uma gastrite ou úlcera, é importante descobrir o motivo.
O H. pylori, por exemplo, pode estar envolvido. Anti-inflamatórios não esteroides também são uma causa importante de lesões gastroduodenais.
Nessas situações, substituir o tratamento indicado por chá pode atrasar a resolução do problema.
O que a ciência mostra?
Quando olhamos especificamente para chás e plantas utilizadas para sintomas digestivos, a evidência pode ser resumida assim:
Gengibre: apresenta evidências clínicas interessantes para náusea e alguns efeitos sobre a motilidade gástrica. Ainda são limitadas as evidências de que funcione como tratamento específico para dispepsia ou como protetor da mucosa.
Camomila: faz parte de algumas formulações fitoterápicas estudadas para dispepsia, mas isso não permite atribuir o benefício ao chá de camomila isoladamente.
Hortelã: algumas preparações de óleo apresentam evidência para sintomas da síndrome do intestino irritável, mas o chá de folhas foi muito menos estudado. Além disso, a hortelã pode piorar refluxo em algumas pessoas.
Erva-doce: possui mecanismos biologicamente plausíveis e resultados experimentais interessantes, mas ainda faltam bons ensaios clínicos para recomendar o chá como tratamento de problemas gástricos.
Alcaçuz: existem estudos antigos sobre preparações específicas e úlcera, mas a evidência não sustenta transformar o chá de alcaçuz em tratamento para gastrite. Além disso, existem preocupações de segurança com a glicirrizina.
De maneira geral, uma meta-análise de 49 ensaios clínicos encontrou benefício de preparações fitoterápicas para sintomas de dispepsia funcional, mas também destacou a necessidade de estudos de melhor qualidade.
E existe outro detalhe importante: “fitoterápico” não é sinônimo de “chá”.
Dose, parte da planta utilizada, forma de extração, concentração e padronização podem alterar completamente a exposição aos compostos ativos.
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| Foto de نشمـيّـه / Pexels |
Como escolher um chá para digestão na prática?
Se você está saudável e quer apenas uma bebida quente depois de uma refeição, não existe necessidade de transformar isso em uma intervenção terapêutica.
Um chá de camomila, erva-doce ou gengibre pode fazer parte da rotina se você gosta e percebe que se sente bem com ele.
O critério mais importante é observar sua própria tolerância.
Se você tem refluxo, por exemplo, hortelã pode não ser uma boa escolha.
Se gengibre aumenta sua azia, não precisa insistir.
Se qualquer bebida quente piora seus sintomas, também vale investigar o motivo em vez de simplesmente procurar outra planta.
E, principalmente, não é necessário tomar chá imediatamente depois de todas as refeições para “facilitar a digestão”.
Seu sistema digestivo já possui mecanismos próprios para digerir os alimentos.
O chá pode ser um complemento agradável. Não precisa se transformar em uma obrigação alimentar.
Quando o chá não é suficiente
Existem sintomas que merecem avaliação médica em vez de uma tentativa prolongada de automanejo com chás.
Procure avaliação se você apresenta dor ou queimação persistente, vômitos recorrentes, dificuldade ou dor para engolir, perda de peso sem explicação, anemia, sangramento digestivo, fezes negras ou sintomas que estão piorando.
A dispepsia persistente também merece investigação adequada. Diretrizes internacionais recomendam uma abordagem baseada em idade, sintomas, fatores de risco e investigação de H. pylori, entre outros fatores.
O objetivo não é descobrir “qual chá tomar”.
É descobrir por que você está tendo aquele sintoma.
E se eu estiver tomando medicamentos?
Esse é um ponto especialmente importante quando falamos de fitoterapia.
Uma planta pode conter dezenas de compostos biologicamente ativos. Alguns podem interferir na absorção, metabolismo ou efeito de medicamentos.
Isso não significa que todo chá seja perigoso.
Significa que “natural” não é uma categoria de segurança.
A camomila, por exemplo, possui relatos de possíveis interações com alguns medicamentos. O gengibre também pode apresentar interações e efeitos adversos em algumas pessoas.
Por isso, se você usa medicamentos continuamente, está grávida, amamentando ou possui alguma doença crônica, vale conversar com um profissional antes de usar plantas em quantidades medicinais ou concentradas.
Uma xícara ocasional de um chá culinário é uma situação diferente de utilizar extratos, cápsulas ou grandes quantidades da planta todos os dias.
Concluindo
Chá pode ser uma ótima bebida para incluir na rotina. Algumas plantas também apresentam resultados interessantes em estudos sobre sintomas digestivos.
O que a ciência ainda não permite dizer é que exista um chá universal capaz de “proteger a mucosa gástrica”, “curar gastrite” ou “cicatrizar o estômago”.
Gengibre tem evidências interessantes para náusea e alguns aspectos da motilidade gastrointestinal. Preparações fitoterápicas específicas apresentam resultados promissores para dispepsia. Camomila e erva-doce têm usos tradicionais e mecanismos plausíveis, mas faltam estudos clínicos suficientes para fazer recomendações terapêuticas fortes. Hortelã pode ajudar alguns sintomas digestivos, mas pode piorar refluxo em determinadas pessoas.
E talvez essa seja a parte mais importante:
não precisamos transformar uma xícara de chá em medicamento para reconhecer que ela pode fazer parte de uma rotina saudável.
Se você gosta de tomar um chá depois do jantar e ele faz você se sentir bem, ótimo.
Se você está tomando chá todos os dias porque sente dor, queimação, náusea ou desconforto frequente, a pergunta mais importante não é qual chá escolher.
É descobrir o que está causando esses sintomas.
Referências
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Heiran A, Bagheri Lankarani K, Bradley R, et al. Efficacy of herbal treatments for functional dyspepsia: A systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Phytotherapy Research. 2022.
Nikkhah Bodagh M, Maleki I, Hekmatdoost A. Ginger in gastrointestinal disorders: A systematic review of clinical trials. Food Science & Nutrition. 2019.
Hu ML, Rayner CK, Wu KL, et al. Effect of ginger on gastric motility and symptoms of functional dyspepsia. World Journal of Gastroenterology. 2011.
Miwa H, Nagahara A, Asakawa A, et al. Evidence-based clinical practice guidelines for functional dyspepsia 2021. Journal of Gastroenterology. 2022.
Tan N, Goh KL, et al. Herbal medicine in the treatment of functional gastrointestinal disorders: A systematic review with meta-analysis. Journal of Gastroenterology and Hepatology. 2020.
National Center for Complementary and Integrative Health. Peppermint Oil: Usefulness and Safety.
National Center for Complementary and Integrative Health. Ginger: Usefulness and Safety.
National Center for Complementary and Integrative Health. Chamomile: Usefulness and Safety.



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