Melatonina e endometriose: ela realmente ajuda? O que a ciência mostra
![]() |
Imagem: sorendls / Getty Images Signature via Canva |
Melatonina e endometriose: vale a pena usar?
Se você pesquisou sobre melatonina e endometriose, provavelmente encontrou vídeos dizendo que ela reduz a inflamação, melhora a dor ou até "trata" a doença.
Mas será que isso é verdade?
A resposta curta é: a melatonina tem resultados promissores, principalmente na redução da dor e na melhora da qualidade do sono, mas ainda não faz parte do tratamento padrão da endometriose.
Neste artigo, vou explicar o que a ciência sabe até o momento, quais mulheres podem se beneficiar e quais cuidados são importantes antes de iniciar a suplementação.
O que é a melatonina?
A melatonina é um hormônio produzido principalmente pela glândula pineal durante a noite.
Ela é mais conhecida por regular o ciclo do sono, mas essa não é sua única função.
Pesquisas mostram que a melatonina também apresenta propriedades antioxidantes, participa da modulação do sistema imunológico e influencia alguns processos inflamatórios.
Foi justamente por isso que pesquisadores começaram a investigar se ela poderia ajudar mulheres com endometriose.
Por que a melatonina despertou interesse na endometriose?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica, dependente de estrogênio, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero.
Além da inflamação, existe aumento do estresse oxidativo, alterações na resposta imunológica e sensibilização do sistema nervoso, fatores que contribuem para sintomas como:
dor pélvica;
cólicas intensas;
dor durante a relação sexual;
dor para evacuar ou urinar durante a menstruação;
fadiga;
piora da qualidade do sono.
Como a melatonina atua em alguns desses mecanismos, surgiu a hipótese de que ela poderia contribuir para o manejo da doença.
É importante destacar que isso não significa que ela trate a causa da endometriose, mas que pode ajudar alguns sintomas em determinadas situações.
O que os estudos mostram?
Até o momento, os resultados são promissores, mas ainda limitados.
Os estudos clínicos disponíveis sugerem que a melatonina pode reduzir a intensidade da dor em algumas mulheres com endometriose.
Em um dos ensaios clínicos mais conhecidos, mulheres que utilizaram melatonina apresentaram redução da dor pélvica e menor necessidade de analgésicos quando comparadas ao grupo placebo.
Além disso, houve melhora da qualidade do sono.
Esses resultados fazem sentido porque dormir melhor também pode influenciar a percepção da dor.
No entanto, ainda existem limitações importantes.
Os estudos realizados até agora incluem relativamente poucas participantes, utilizam doses diferentes e acompanham as pacientes por períodos curtos.
Por isso, ainda não é possível afirmar que toda mulher com endometriose deva utilizar melatonina.
A melatonina reduz a inflamação?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes.
Em estudos experimentais, a melatonina demonstrou reduzir alguns marcadores inflamatórios e combater o estresse oxidativo.
Entretanto, resultados observados em laboratório nem sempre acontecem da mesma forma em seres humanos.
Até o momento, não existem evidências suficientes para afirmar que a melatonina reduza a inflamação da endometriose de maneira clinicamente relevante.
Ela pode participar desse processo, mas ainda precisamos de estudos maiores para entender qual é o impacto real.
Melatonina faz as lesões desaparecerem?
Não.
Nenhum estudo demonstrou que a melatonina elimine focos de endometriose.
Esse é um mito que circula com frequência nas redes sociais.
Os benefícios observados até o momento estão relacionados principalmente ao controle de sintomas, especialmente dor e sono.
Quem pode se beneficiar?
A melatonina pode ser considerada em algumas situações específicas, principalmente quando a mulher apresenta:
dificuldade para dormir;
sono de baixa qualidade;
dor crônica associada ao prejuízo do sono.
Isso não significa que ela seja indicada para todas as mulheres com endometriose.
Cada caso precisa ser avaliado individualmente.
A melatonina é segura?
De maneira geral, a melatonina apresenta um bom perfil de segurança quando utilizada corretamente.
Mesmo assim, podem ocorrer efeitos adversos, como:
sonolência durante o dia;
tontura;
dor de cabeça;
sonhos mais intensos.
Além disso, ela pode interagir com alguns medicamentos.
Por esse motivo, a suplementação deve ser orientada por um profissional habilitado.
Qual dose foi utilizada nos estudos?
Essa é outra dúvida comum.
Os estudos utilizaram doses diferentes, geralmente variando entre 3 mg e 10 mg por dia.
Isso não significa que essa seja a dose ideal para todas as pessoas.
A dose depende do objetivo, das características individuais e da avaliação clínica.
Evite utilizar a dose de um estudo como referência para automedicação.
Vale a pena tomar melatonina por conta própria?
Minha recomendação é que não.
Mesmo sendo um suplemento considerado seguro na maioria dos casos, isso não significa que ele seja necessário ou indicado para todas as mulheres.
Antes de iniciar qualquer suplementação, é importante avaliar:
como está sua qualidade do sono;
quais são seus principais sintomas;
quais medicamentos você utiliza;
quais outros fatores podem estar contribuindo para sua dor.
Muitas vezes, melhorar hábitos de sono, alimentação, atividade física e manejo do estresse também faz parte do tratamento.
O que a ciência conclui até agora?
As evidências atuais sugerem que a melatonina pode ser uma ferramenta complementar no manejo da endometriose, especialmente para mulheres que apresentam dor associada à piora do sono.
Entretanto, ainda não existem evidências suficientes para considerá-la um tratamento padrão da doença.
Mais estudos são necessários para definir quais mulheres realmente se beneficiam, qual a dose ideal e quais são os efeitos no longo prazo.
Perguntas frequentes
Quem tem endometriose deve tomar melatonina?
Não necessariamente. A indicação depende da avaliação individual.
A melatonina substitui o tratamento da endometriose?
Não. Ela pode ser utilizada como parte do manejo em alguns casos, mas não substitui acompanhamento médico e nutricional.
Melatonina reduz as lesões da endometriose?
Até o momento, não existem evidências de que reduza as lesões.
A melatonina melhora a dor?
Alguns estudos mostram redução da dor em parte das mulheres, mas os resultados ainda são considerados preliminares.
Preciso de receita?
As regras podem variar conforme o país e a formulação disponível. Mesmo quando a compra é facilitada, isso não elimina a necessidade de orientação profissional.
Conclusão
A melatonina é um suplemento que desperta bastante interesse na pesquisa sobre endometriose.
Os resultados encontrados até agora são animadores, principalmente em relação à dor e à qualidade do sono.
Ao mesmo tempo, é importante evitar promessas exageradas.
Ela não elimina a doença, não faz as lesões desaparecerem e ainda não pode ser considerada um tratamento indicado para todas as mulheres.
A melhor estratégia continua sendo um cuidado individualizado, baseado em evidências e adaptado à realidade de cada paciente.
Referências
Schwertner A, et al. Efficacy of melatonin in the treatment of endometriosis: a phase II randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Pain. 2013.
Nisolle M, et al. Revisões recentes sobre estresse oxidativo, melatonina e endometriose.
European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). Guideline: Endometriosis (versão mais recente).

Comentários
Postar um comentário
Esse texto te fez lembrar de alguma coisa? Conta aqui embaixo — quero saber sua opinião (ou sua dúvida)!