Café e endometriose: precisa parar de tomar?
Se você tem endometriose e gosta de café, provavelmente já encontrou algum conteúdo dizendo que precisa abandonar a bebida.
Talvez alguém tenha dito que o café “aumenta a inflamação”, “piora os hormônios” ou “faz a endometriose crescer”.
E aí aparece aquela dúvida difícil:
eu preciso parar de tomar café por causa da endometriose?
A resposta mais honesta é: não existe evidência suficiente para recomendar que toda mulher com endometriose elimine o café.
O assunto, porém, não é completamente encerrado. Alguns estudos investigaram a relação entre cafeína e endometriose e encontraram resultados diferentes. Uma meta-análise mais recente encontrou uma possível associação entre consumo elevado de cafeína, acima de 300 mg por dia, e maior risco de endometriose. Ao analisar o consumo de cafeína como um todo, porém, a associação não foi estatisticamente significativa.
Isso é bem diferente de dizer que “café causa endometriose”.
Neste artigo, vamos separar o que sabemos do que ainda é hipótese. Você vai entender a relação entre café, cafeína, endometriose e dor e descobrir quando faz sentido reduzir a bebida — e quando você simplesmente pode continuar tomando seu café sem culpa.
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| Foto de Melanie Brumble: Pexels |
Café e endometriose: existe uma relação?
Até o momento, não há evidência de que o consumo habitual de café cause endometriose.
Esse ponto é importante porque grande parte das informações disponíveis na internet mistura dois conceitos diferentes: o risco de desenvolver a doença e a intensidade dos sintomas de quem já tem endometriose.
São perguntas diferentes.
A maioria dos estudos que investigou café ou cafeína em relação à endometriose avaliou se mulheres que consumiam mais cafeína apresentavam maior probabilidade de ter a doença. Isso não responde diretamente se o café faz uma mulher que já tem endometriose sentir mais dor.
Uma meta-análise publicada em 2014 reuniu oito estudos, envolvendo 1.407 mulheres com endometriose, e não encontrou evidência de associação entre consumo de café ou cafeína e risco de endometriose.
Em 2021, uma revisão sistemática com meta-análise atualizou essa investigação. Foram incluídos dez estudos, cinco de coorte e cinco caso-controle.
Quando o consumo total de cafeína foi comparado ao consumo baixo ou inexistente, não houve associação estatisticamente significativa com endometriose.
Porém, quando os pesquisadores analisaram separadamente o consumo elevado, acima de 300 mg de cafeína por dia, encontraram uma associação com maior risco. O resultado foi um risco relativo de 1,30, com intervalo de confiança de 1,04 a 1,63.
Isso parece importante, mas precisamos olhar para o estudo com cuidado.
O que significa consumir mais de 300 mg de cafeína?
A quantidade de cafeína varia bastante conforme o tipo de café, o método de preparo, o tamanho da xícara e a marca.
Por isso, não existe uma equivalência perfeita entre “xícaras de café” e miligramas de cafeína.
Um café coado pode ter uma quantidade diferente de cafeína de um espresso. Um copo grande pode ter muito mais cafeína que uma xícara pequena.
Além disso, café não é a única fonte de cafeína.
Chás, bebidas energéticas, refrigerantes à base de cola, pré-treinos, chocolate e alguns medicamentos também podem contribuir para o consumo total.
Por isso, quando um estudo fala em “mais de 300 mg de cafeína”, não significa necessariamente três xícaras de café.
A quantidade precisa ser interpretada de acordo com a bebida.
E existe outro detalhe importante: o estudo não prova que a cafeína causou a endometriose.
Os estudos incluídos eram observacionais. Eles conseguem identificar associações, mas não conseguem estabelecer causalidade com a mesma segurança de um ensaio clínico randomizado.
Mulheres que consomem muito café podem apresentar outras características que também se relacionam à saúde, ao sono, ao estresse, ao trabalho, à alimentação ou ao estilo de vida.
É muito difícil separar completamente esses fatores.
Mas e a inflamação?
Essa é uma das explicações mais utilizadas quando alguém recomenda cortar café para endometriose.
A endometriose envolve processos inflamatórios, imunológicos e hormonais. Isso é bem estabelecido.
A cafeína, por sua vez, possui diversos efeitos fisiológicos no organismo.
O problema aparece quando transformamos essa informação em uma conclusão muito maior do que os estudos permitem.
Dizer que:
“a endometriose envolve inflamação”
e que:
“a cafeína produz determinados efeitos no organismo”
não significa automaticamente que:
“café piora a inflamação da endometriose”.
Essa última afirmação precisaria ser demonstrada diretamente em estudos clínicos adequados.
E não temos evidência robusta mostrando que retirar café reduz as lesões de endometriose ou modifica a evolução da doença.
A ESHRE, em sua diretriz para endometriose, destaca justamente que os estudos sobre intervenções nutricionais ainda são limitados em quantidade e qualidade. A diretriz não estabelece uma dieta específica para endometriose com base nesses dados.
Portanto, “anti-inflamatório” não deve ser usado como sinônimo de “sem café”.
Café pode piorar a dor da endometriose?
Aqui a resposta também é: não sabemos com segurança.
Existem estudos sobre cafeína e dor menstrual em geral, mas isso não é a mesma coisa que estudar dor causada pela endometriose.
Uma meta-análise publicada em 2024, por exemplo, encontrou associação entre consumo elevado de cafeína e dismenorreia primária. Entretanto, os estudos analisados envolveram mulheres com dismenorreia primária, e não especificamente mulheres com endometriose.
Isso é importante porque a dor da endometriose é uma condição diferente.
A dismenorreia primária acontece sem uma doença pélvica estrutural identificável como causa da dor. Na endometriose, a dor está inserida em um quadro clínico completamente diferente.
Portanto, não podemos simplesmente pegar um estudo sobre cólica menstrual e concluir que café piora a dor causada pela endometriose.
Seria extrapolar os dados.
Também não existem bons ensaios clínicos mostrando que retirar cafeína reduz de forma consistente a dor da endometriose.
Por que algumas mulheres sentem que o café piora seus sintomas?
Isso pode acontecer.
E não significa que a experiência da mulher esteja errada.
A cafeína pode produzir efeitos que variam bastante entre indivíduos. Algumas pessoas são mais sensíveis e podem apresentar palpitação, ansiedade, tremores, desconforto gastrointestinal ou dificuldade para dormir depois de consumir cafeína.
Se uma mulher com endometriose já apresenta sono ruim, ansiedade, sintomas intestinais ou maior sensibilidade gastrointestinal, o café pode acabar piorando algum aspecto da rotina, mesmo que não esteja agravando a própria endometriose.
Essa distinção é muito importante.
Imagine uma mulher que toma café às 17h, dorme mal naquela noite e, no dia seguinte, percebe mais fadiga e menor tolerância à dor.
O problema pode estar relacionado ao impacto da cafeína sobre o sono.
Isso não significa que o café tenha aumentado as lesões de endometriose.
Da mesma forma, uma mulher com síndrome do intestino irritável pode perceber aumento de urgência intestinal ou desconforto depois do café. Nesse caso, talvez o problema esteja relacionado ao trato gastrointestinal, não à endometriose propriamente dita.
É por isso que a resposta precisa ser individualizada.
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| Foto de Jana Rustmeier: Pexels |
Café descafeinado é melhor para quem tem endometriose?
Não necessariamente.
Se a sua preocupação específica é a cafeína, o café descafeinado reduz bastante a quantidade dessa substância.
Isso pode ser interessante para mulheres que apresentam sensibilidade à cafeína, palpitações, ansiedade ou dificuldade para dormir.
Também pode ser uma alternativa para quem percebe uma relação consistente entre café com cafeína e algum sintoma.
Mas não existe evidência de que o café descafeinado seja superior ao café comum especificamente para controlar a endometriose.
Portanto, trocar para descafeinado não deve ser encarado como uma recomendação universal para mulheres com endometriose.
É uma possibilidade.
Não uma obrigação.
Preciso parar de tomar café durante a menstruação?
Também não existe uma recomendação baseada em evidências para que todas as mulheres com endometriose eliminem café durante a menstruação.
Se você percebe que determinados sintomas aparecem ou ficam mais intensos nessa fase quando consome cafeína, pode fazer sentido experimentar uma redução temporária e observar a resposta.
Mas isso é diferente de dizer que toda mulher deve fazer o mesmo.
Inclusive, quando você muda muitas coisas ao mesmo tempo, fica difícil descobrir o que realmente fez diferença.
Se você elimina café, glúten, leite, açúcar, chocolate e vários outros alimentos simultaneamente e depois sente melhora, não é possível saber qual mudança foi responsável — ou se a melhora ocorreu por outro motivo.
Essa é uma das razões pelas quais dietas extremamente restritivas podem ser pouco úteis.
Café com leite muda alguma coisa?
Pode mudar, dependendo da sua tolerância.
Se você percebe desconforto depois de tomar café com leite, não necessariamente o problema é o café.
Pode existir uma questão relacionada ao leite, à lactose, à quantidade consumida ou até à própria combinação da bebida com outros alimentos.
Em mulheres com sintomas intestinais, isso merece ainda mais atenção.
O café também pode estimular a motilidade intestinal. Para algumas pessoas, isso é confortável e ajuda na evacuação. Para outras, pode aumentar urgência, cólicas ou desconforto.
Portanto, quando alguém diz “café me faz mal”, vale perguntar:
o que exatamente acontece depois que você toma?
Dor pélvica?
Gases?
Diarreia?
Palpitação?
Ansiedade?
Insônia?
Azia?
Ou simplesmente uma sensação geral de que não se sente bem?
A resposta muda completamente a estratégia.
E se eu tiver endometriose e síndrome do intestino irritável?
Nesse caso, a análise pode ser um pouco mais cuidadosa.
A cafeína pode estimular o funcionamento intestinal em algumas pessoas. Para quem tem síndrome do intestino irritável, principalmente quando existe tendência à diarreia ou urgência, o café pode ser um gatilho individual.
Isso não significa que você precise excluir café automaticamente.
Pode ser mais útil observar quantidade, horário, tipo de café e o contexto em que ele é consumido.
Uma pessoa que toma café em jejum e apresenta sintomas pode responder de maneira diferente daquela que toma uma pequena quantidade depois de uma refeição.
Se os sintomas intestinais são frequentes, também pode ser necessário investigar outras causas e avaliar a alimentação como um todo.
O café não precisa carregar sozinho a responsabilidade por todos os sintomas gastrointestinais.
O que a ciência mostra?
Até o momento, podemos resumir as evidências de forma bastante objetiva.
Não existe evidência consistente de que café cause endometriose.
Uma meta-análise de 2014 não encontrou associação significativa entre consumo de café ou cafeína e risco de endometriose.
Uma revisão sistemática e meta-análise de 2021 também não encontrou associação significativa para o consumo geral de cafeína. Entretanto, observou uma possível associação entre consumo elevado, acima de 300 mg por dia, e maior risco de endometriose. Os próprios autores destacaram a necessidade de mais pesquisas para esclarecer essa possível relação dose-resposta e a influência de fatores de confusão.
Mais recentemente, um estudo transversal utilizando dados do NHANES encontrou uma associação não linear entre cafeína e endometriose. Porém, o diagnóstico de endometriose era baseado em autorrelato e o desenho transversal não permite estabelecer causa e efeito.
Uma umbrella review publicada em 2025 também encontrou uma possível associação entre consumo elevado de cafeína, acima de 300 mg/dia, e risco de endometriose. Entretanto, os próprios autores classificaram a qualidade geral das evidências como baixa e destacaram heterogeneidade importante entre os estudos.
E quando olhamos para as diretrizes, a mensagem continua sendo de cautela.
A ESHRE reconhece que a alimentação pode teoricamente influenciar processos relacionados à endometriose, mas afirma que os estudos sobre intervenções nutricionais ainda são muito limitados para estabelecer uma dieta específica para a doença.
Portanto, existe um sinal de pesquisa que merece investigação, principalmente em relação a consumos elevados de cafeína.
Ainda não existe evidência suficiente para dizer:
“mulheres com endometriose não devem tomar café”.
Então, quanto café você pode tomar?
Não existe uma quantidade específica estabelecida pelas diretrizes de endometriose.
Uma referência geral de segurança para adultos saudáveis frequentemente utilizada por autoridades regulatórias é de até 400 mg de cafeína por dia, embora a sensibilidade individual varie e algumas pessoas precisem de quantidades menores.
Isso não significa que 400 mg seja uma meta ou uma recomendação para quem tem endometriose.
É apenas uma referência geral de consumo de cafeína.
Na prática, eu não começaria pelo número.
Começaria pela sua resposta individual.
Se você toma uma ou duas xícaras pequenas de café por dia, não apresenta sintomas relacionados à bebida e gosta do seu café, não existe evidência sólida que justifique eliminá-lo apenas por ter endometriose.
Por outro lado, se você percebe que uma quantidade maior piora seu sono, aumenta sintomas intestinais, provoca ansiedade ou coincide com piora consistente de determinados sintomas, reduzir pode fazer sentido.
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| Foto de The Design Lady: Pexels |
Como descobrir se o café realmente é um gatilho para você?
Se existe uma suspeita clara, você pode observar seu padrão por algum tempo.
Não é necessário retirar o café para sempre.
Primeiro, registre quando toma café, aproximadamente quanto, em qual horário e quais sintomas aparecem nas horas seguintes e nos dias posteriores.
Observe também seu ciclo menstrual.
Isso pode ajudar a diferenciar uma associação consistente de uma coincidência.
Se você percebe que os sintomas aparecem repetidamente depois do consumo, pode ser interessante reduzir a quantidade por um período e acompanhar novamente.
Uma estratégia ainda melhor é não mudar várias coisas simultaneamente.
Se você retira café, glúten, leite, chocolate e açúcar na mesma semana, não conseguirá identificar qual mudança teve importância.
E se não houver diferença após a redução do café, talvez não exista motivo para mantê-lo excluído.
A alimentação não precisa ser mais restritiva do que o necessário.
O que realmente importa na alimentação para endometriose?
Talvez essa seja a principal mensagem deste artigo.
Quando falamos sobre alimentação e endometriose, existe uma tendência de procurar um único alimento responsável pela melhora ou piora dos sintomas.
A ciência não funciona dessa maneira.
A alimentação é um padrão.
Uma dieta baseada predominantemente em alimentos minimamente processados, com variedade de vegetais, frutas, leguminosas, fontes adequadas de proteína, cereais e tubérculos conforme as necessidades individuais e fontes de gorduras insaturadas pode contribuir para a saúde geral.
Isso não significa que cada alimento tenha uma propriedade medicinal contra a endometriose.
Também não significa que você precise eliminar todos os alimentos sobre os quais existe alguma hipótese.
A própria ESHRE destaca que ainda não existe evidência suficiente para recomendar uma dieta específica para endometriose.
Por isso, a pergunta “posso tomar café?” deve fazer parte de uma avaliação maior.
Como é sua alimentação no conjunto?
Como está seu intestino?
Como está seu sono?
Você consegue se alimentar adequadamente?
Está evitando tantos alimentos que sua dieta ficou limitada?
Existe alguma deficiência nutricional?
Você percebe gatilhos individuais?
Essas perguntas são muito mais úteis do que simplesmente criar uma lista de alimentos proibidos.
Aplicação prática
Se você tem endometriose e gosta de café, não precisa entrar em pânico.
Se o café não provoca sintomas perceptíveis e seu consumo é moderado, não há evidência de qualidade suficiente para recomendar sua retirada apenas por causa da endometriose.
Se você consome grandes quantidades de cafeína, pode ser interessante avaliar o consumo total, principalmente porque alguns estudos encontraram uma possível associação entre níveis elevados e endometriose. Essa associação ainda não prova causalidade.
Se você percebe sintomas depois do café, investigue o padrão.
Talvez seja a cafeína. Talvez seja o volume da bebida. Talvez seja o café em jejum. Talvez seja o leite. Talvez seja um efeito intestinal. Talvez seja o horário, especialmente se estiver prejudicando seu sono.
E existe uma última possibilidade que merece ser considerada:
talvez o café não seja o problema.
Nem todo sintoma que aparece depois de comer ou beber alguma coisa foi causado por aquele alimento.
Aprender a diferenciar associação de causalidade é uma parte importante de uma alimentação baseada em evidências.
Concluindo
Se você tem endometriose, não precisa necessariamente parar de tomar café.
Até o momento, os estudos não demonstram uma relação consistente entre consumo de café ou cafeína e desenvolvimento da endometriose. Existe uma sinalização de possível associação com consumo elevado de cafeína, especialmente acima de 300 mg por dia, mas a qualidade e a natureza observacional dos estudos não permitem concluir que a cafeína cause a doença.
Também não temos evidências robustas de que retirar café reduza as lesões ou trate a dor da endometriose.
Isso não significa que o café seja irrelevante para todas as mulheres.
Se você percebe que a bebida piora seu sono, seus sintomas gastrointestinais ou algum sintoma que aparece de forma consistente depois do consumo, reduzir pode ser uma escolha individual válida.
O ponto é não transformar essa experiência individual em uma regra para todas as mulheres com endometriose.
Você não precisa ter medo da comida.
E não precisa construir uma alimentação cheia de proibições para cuidar da endometriose.
Se o seu café faz parte de uma alimentação adequada, você se sente bem depois de tomá-lo e não existe uma razão clínica específica para restringi-lo, não há motivo baseado nas evidências atuais para abandoná-lo apenas por ter endometriose.
Referências
Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open. 2022;2022(2):hoac009.
Kechagias KS, Triantafyllidis KK, Kyriakidou M, et al. The Relation between Caffeine Consumption and Endometriosis: An Updated Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients. 2021;13(10):3457.
Chiaffarino F, Bravi F, Cipriani S, et al. Coffee and caffeine intake and risk of endometriosis: a meta-analysis. European Journal of Nutrition. 2014;53(7):1573-1579.
Liu J, Wang Y, Wu L, et al. Study on the influencing factors of primary dysmenorrhea in female college students: Systematic review and meta-analysis. Medicine. 2024;103(49):e40906.
Diet and Endometriosis: An Umbrella Review. 2025.



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