Endometriose e ganho de peso: por que pode ser tão difícil emagrecer?

“Eu sinto que estou fazendo tudo certo, mas meu peso não baixa.”

Essa é uma queixa que pode aparecer com frequência entre mulheres com endometriose. Algumas percebem aumento de peso depois do diagnóstico. Outras sentem que emagrecer ficou mais difícil depois que começaram a conviver com dor, cansaço, alterações intestinais ou determinados tratamentos.

E então surge a dúvida: será que a endometriose faz engordar?

A resposta não é tão simples.

A ciência ainda não permite dizer que a endometriose, sozinha, provoque ganho de peso ou impeça o emagrecimento. Inclusive, alguns grandes estudos observacionais encontraram uma associação entre menor IMC e maior probabilidade de diagnóstico de endometriose, o que mostra como a relação entre peso corporal e doença é muito mais complexa do que costuma aparecer nas redes sociais.

Isso não significa que a dificuldade para emagrecer seja “falta de disciplina”.

Quando uma mulher convive com dor pélvica, fadiga, sono ruim, sintomas intestinais e limitações para se movimentar, seu contexto é completamente diferente daquele de alguém que está simplesmente tentando perder alguns quilos.

Neste artigo, vamos entender o que realmente sabemos sobre endometriose e ganho de peso, quais fatores podem dificultar o emagrecimento e como uma abordagem nutricional pode ajudar sem transformar a alimentação em mais uma fonte de culpa.

Foto de Anastasia Shuraeva no Pexels

Endometriose causa ganho de peso?

Não podemos afirmar isso.

A relação entre endometriose e peso corporal é complexa e, em alguns estudos, aparece até na direção oposta: mulheres com maior IMC apresentaram menor risco de receber diagnóstico de endometriose. Um dos estudos prospectivos mais conhecidos acompanhou mais de 116 mil mulheres por cerca de 20 anos e encontrou uma associação inversa entre IMC e incidência de endometriose.

Isso pode parecer contraditório quando pensamos nas mulheres que relatam ganho de peso depois do diagnóstico.

Só que uma coisa é estudar risco de desenvolver ou ser diagnosticada com endometriose. Outra é acompanhar a evolução do peso de uma mulher que já tem a doença.

São perguntas diferentes.

Além disso, estudos observacionais podem sofrer influência de diversos fatores, como idade, infertilidade, características hormonais, comportamento alimentar, atividade física e composição corporal. Portanto, não é possível concluir que um determinado peso “proteja” contra endometriose ou que o excesso de peso cause a doença.

Uma revisão recente também destaca que a relação entre endometriose e obesidade envolve mecanismos metabólicos, hormonais e imunoinflamatórios, mas ressalta a complexidade dessa interação.

Por isso, a pergunta mais útil não é simplesmente “a endometriose engorda?”.

É:

O que está acontecendo na rotina dessa mulher que pode estar tornando o emagrecimento mais difícil?

E aqui encontramos vários caminhos possíveis.

A dor pode mudar sua relação com o movimento

Imagine passar vários dias do mês com dor pélvica, cólicas intensas, dor lombar ou desconforto ao evacuar.

É natural que o corpo passe a evitar determinados movimentos.

Em algumas mulheres, a atividade física diminui bastante. Em outras, o exercício passa a ser feito de maneira irregular porque existem períodos em que simplesmente não é possível treinar como antes.

Isso não significa que a mulher esteja “sedentária porque não quer se esforçar”.

A dor crônica pode modificar profundamente a rotina.

E existe uma consequência importante para quem deseja perder peso: quando o gasto energético diário diminui, o balanço energético também pode mudar.

Além disso, ficar mais tempo sentada ou deitada durante períodos de dor pode reduzir o chamado gasto energético das atividades cotidianas, que inclui caminhar, subir escadas, trabalhar em pé, fazer tarefas domésticas e outros movimentos que nem sempre consideramos exercício.

A literatura mais recente indica que atividade física e exercício podem contribuir para melhorar dor e qualidade de vida em mulheres com endometriose, embora a evidência ainda tenha limitações e não permita estabelecer um protocolo único de exercício para todas. Uma meta-análise publicada em 2025 encontrou benefícios principalmente em qualidade de vida, dor e alguns aspectos da saúde física, mas destacou a heterogeneidade e a curta duração dos estudos disponíveis.

Por isso, “você precisa fazer mais exercício” é uma recomendação simplista.

Para uma mulher com dor, a pergunta deveria ser:

qual movimento é possível, seguro e sustentável para ela neste momento?

Dor e sono ruim podem andar juntos

Outro fator frequentemente esquecido é o sono.

Mulheres com endometriose podem apresentar alterações importantes na qualidade do sono. Uma revisão sistemática encontrou associação entre endometriose e distúrbios do sono, destacando a interação entre dor, fadiga e qualidade de vida.

Uma meta-análise publicada em 2026 também encontrou pior qualidade do sono em mulheres com endometriose quando comparadas aos controles, embora os autores ressaltem heterogeneidade importante entre os estudos.

E por que isso importa para o peso?

Porque dormir mal pode tornar a rotina alimentar e a prática de atividade física mais difíceis. A privação de sono também está relacionada a alterações na regulação do apetite, na preferência alimentar e no metabolismo energético em estudos realizados na população geral.

Isso não significa que “dormir pouco engorda automaticamente”.

Significa que uma mulher que dorme mal, sente dor e está exausta provavelmente enfrenta mais barreiras comportamentais e fisiológicas para sustentar uma estratégia de emagrecimento.

Esse contexto precisa ser considerado.

O tratamento da endometriose pode influenciar o peso?

Pode existir influência, dependendo do tratamento utilizado e da resposta individual.

Tratamentos hormonais são frequentemente utilizados para controlar sintomas da endometriose. Entre eles estão anticoncepcionais hormonais, progestagênios e outras terapias que atuam no eixo hormonal.

Algumas mulheres percebem alteração de peso durante o tratamento. Isso não significa necessariamente que o medicamento esteja causando aumento de gordura corporal.

Mudanças de apetite, retenção de líquidos, alterações gastrointestinais, redução da atividade física ou mudanças na composição corporal podem participar dessa percepção.

Por isso, se o ganho de peso começou depois de uma mudança de medicação, vale conversar com o ginecologista que acompanha o caso. Não é recomendável interromper ou trocar o tratamento por conta própria.

A terapêutica da endometriose deve ser individualizada e considerar sintomas, objetivos reprodutivos, efeitos adversos e preferências da paciente. A diretriz da ESHRE reforça justamente a necessidade de uma abordagem individualizada para o tratamento da doença.

E a inflamação? Ela dificulta emagrecer?

Aqui é preciso tomar cuidado com uma explicação muito comum na internet.

A endometriose envolve processos inflamatórios e alterações imunológicas. O tecido semelhante ao endométrio localizado fora do útero participa de uma resposta inflamatória local e complexa.

Isso não significa que a inflamação da endometriose faça o metabolismo “travar”.

Também não significa que uma dieta “anti-inflamatória” vá automaticamente produzir emagrecimento.

A relação entre inflamação, tecido adiposo, metabolismo e endometriose é estudada, e existem mecanismos biologicamente plausíveis envolvendo adipocinas, estrogênio, imunidade e sinalização inflamatória. Porém, transformar esses mecanismos em uma explicação simples do tipo “endometriose causa resistência à perda de peso por causa da inflamação” ultrapassa o que os estudos permitem afirmar atualmente.

Na prática, é mais útil pensar no padrão alimentar como um todo.

Uma alimentação com boa quantidade de vegetais, frutas, leguminosas, cereais integrais, fontes adequadas de proteína e gorduras insaturadas pode contribuir para a saúde metabólica. Isso vale independentemente de existir um alimento específico capaz de “desinflamar” o organismo.

Inchaço abdominal também pode parecer ganho de peso

Essa é uma distinção muito importante.

Uma mulher pode perceber a barriga maior ao longo do dia e interpretar isso como aumento de gordura corporal.

Só que distensão abdominal não é a mesma coisa que ganho de gordura.

Mulheres com endometriose também podem apresentar sintomas gastrointestinais, como constipação, diarreia, gases e distensão. Quando esses sintomas variam ao longo do ciclo menstrual, a sensação de aumento abdominal pode ser ainda mais evidente.

O peso da balança também pode oscilar por alterações no conteúdo intestinal e na quantidade de água corporal.

Por isso, uma variação de 1 ou 2 kg em poucos dias não significa necessariamente ganho de gordura.

Essa diferença parece pequena, mas pode mudar completamente a maneira como a mulher interpreta o próprio corpo.

Foto de Polina Zimmerman no Pexels

Então, é possível emagrecer tendo endometriose?

Sim.

Ter endometriose não significa que a perda de gordura corporal seja biologicamente impossível.

O que pode acontecer é que o caminho precise ser diferente e mais individualizado.

Para algumas mulheres, a prioridade inicial pode ser melhorar a regularidade das refeições. Para outras, aumentar proteína e fibras. Para outras, reduzir o consumo frequente de alimentos ultraprocessados. Em alguns casos, tratar constipação ou organizar a alimentação em torno dos sintomas intestinais pode ser essencial.

E há mulheres para quem o primeiro passo não deveria ser uma dieta para emagrecer.

Se a pessoa está com dor intensa, dormindo mal, comendo de maneira muito restritiva e sem conseguir se movimentar, talvez seja mais adequado trabalhar primeiro a recuperação da rotina e da qualidade de vida.

Isso não significa desistir do objetivo de emagrecimento.

Significa construir condições para que ele seja sustentável.

O que a ciência mostra sobre peso e endometriose?

A evidência atual permite algumas conclusões importantes.

Primeiro: não existe evidência suficiente para afirmar que a endometriose, isoladamente, cause ganho de peso.

Segundo: estudos epidemiológicos mostram uma relação complexa entre IMC e endometriose. Em alguns grandes estudos, maior IMC esteve associado a menor incidência da doença, enquanto pesquisas mais recentes discutem mecanismos pelos quais a obesidade também pode influenciar processos relacionados à doença. Essas associações não devem ser interpretadas como causalidade simples.

Terceiro: mulheres com endometriose podem apresentar dor, fadiga, alterações do sono e redução da qualidade de vida. Esses fatores podem interferir diretamente na atividade física e na organização da rotina.

Quarto: há evidências promissoras de que atividade física e algumas estratégias de reabilitação podem melhorar dor e qualidade de vida, embora ainda sejam necessários estudos maiores e mais longos para definir os melhores protocolos.

Quinto: não temos evidências de alta qualidade mostrando que uma dieta específica seja capaz de tratar a endometriose ou produzir perda de peso especificamente por agir sobre as lesões.

Esse último ponto é especialmente importante.

Existem estudos sobre dieta, suplementos e diferentes estratégias nutricionais, porém muitos apresentam amostras pequenas, períodos curtos de acompanhamento e grande heterogeneidade. Uma revisão recente sobre intervenções não farmacológicas também encontrou resultados promissores para alguns sintomas, mas classificou a confiança geral da evidência como muito baixa.

Ou seja: há espaço para a nutrição no cuidado da mulher com endometriose, mas precisamos separar o que é plausível, o que é promissor e o que já está comprovado.

Como trabalhar o emagrecimento quando você tem endometriose?

Uma abordagem nutricional não precisa começar cortando dezenas de alimentos.

O primeiro passo é entender o contexto.

Como está sua fome? Você passa muitas horas sem comer e chega às refeições com muita fome? Existe compulsão ou perda de controle alimentar? Como está o intestino? Você sente muita distensão? Como é o sono? Quanto consegue se movimentar nos períodos de maior dor? Houve mudança recente de medicamento?

Essas perguntas podem ser muito mais importantes do que descobrir qual alimento supostamente “inflama”.

Depois disso, a alimentação pode ser organizada para favorecer saciedade e adequação nutricional.

Uma refeição com uma boa fonte de proteína, vegetais, uma fonte de carboidrato e gordura em quantidade adequada costuma ser mais sustentável do que uma dieta baseada em restrições sucessivas.

A quantidade também importa.

Mesmo alimentos nutritivos podem contribuir para excesso energético quando consumidos em quantidades muito acima das necessidades individuais. Da mesma forma, retirar grupos alimentares sem necessidade pode deixar a alimentação desnecessariamente restritiva.

O objetivo é encontrar um déficit energético, quando ele realmente for indicado, que seja compatível com a vida real da paciente.

E isso inclui considerar os dias em que a dor está pior.

Não é necessário ter a mesma rotina todos os dias para fazer um bom tratamento.

Foto de Alexy Almond no Pexels

O que evitar quando o objetivo é emagrecer com endometriose?

O principal é evitar o ciclo de restrição e compensação.

Cortar glúten, leite, açúcar, café, carne, soja e dezenas de outros alimentos ao mesmo tempo não torna automaticamente a alimentação mais saudável.

Em algumas mulheres, determinadas exclusões podem fazer sentido. Isso deve acontecer a partir de sintomas, diagnóstico, preferências, necessidades nutricionais e resposta individual.

A alimentação para endometriose não precisa ser uma lista interminável de alimentos proibidos.

Também não é necessário esperar que cada alimento tenha uma propriedade “anti-inflamatória” para incluí-lo.

O que importa é o conjunto.

Quando vale investigar outras causas de dificuldade para emagrecer?

Se o peso aumentou rapidamente ou mudou de maneira persistente, vale olhar além da endometriose.

Alterações na tireoide, síndrome dos ovários policísticos, uso de determinados medicamentos, menopausa, alterações do sono, sedentarismo, mudanças na alimentação e outros fatores metabólicos podem participar do quadro.

Também é importante observar se houve mudança no ciclo menstrual, aumento de pelos, acne, queda de cabelo, alterações importantes de fome, cansaço excessivo ou outros sintomas.

A endometriose não deve se tornar uma explicação automática para qualquer alteração corporal.

Uma avaliação individual ajuda justamente a evitar isso.

Aplicação prática: por onde começar?

Se você tem endometriose e está tentando emagrecer, não precisa começar com uma dieta extremamente restritiva.

Comece observando sua rotina por alguns dias.

Perceba como estão suas refeições, fome, sono, intestino, dor e movimento. Observe também se o peso que você percebe como “ganho” é realmente uma tendência ao longo das semanas ou apenas oscilações diárias associadas ao ciclo, retenção de líquidos e funcionamento intestinal.

Depois, procure construir uma alimentação que você consiga manter.

Inclua fontes adequadas de proteína nas refeições. Aumente a presença de alimentos vegetais conforme sua tolerância intestinal. Priorize alimentos minimamente processados na maior parte do tempo. Reduza a frequência de ultraprocessados quando eles ocupam espaço excessivo na alimentação. Organize refeições de maneira que evitem longos períodos de fome, se isso fizer sentido para você.

E não transforme exercício em punição.

Se a dor limita sua movimentação, converse com os profissionais que acompanham seu caso para encontrar uma forma de atividade física compatível com sua condição. Estudos recentes apontam benefícios do exercício e da reabilitação sobre dor e qualidade de vida, embora o tipo e a intensidade precisem ser individualizados.

Concluindo

A dificuldade para emagrecer quando se tem endometriose pode ser real, mas isso não significa que a doença tenha “desligado” o metabolismo.

O mais provável é que exista uma combinação de fatores.

Dor pode reduzir o movimento. Sono ruim pode aumentar o cansaço. Sintomas intestinais podem alterar a percepção do peso e da barriga. Medicamentos podem influenciar a experiência individual. A rotina pode ficar mais irregular. E tudo isso acontece dentro de um organismo que já está lidando com uma doença crônica.

Ao mesmo tempo, a ciência ainda não sustenta a ideia de que a endometriose, por si só, cause ganho de peso ou impeça a perda de gordura.

Por isso, o tratamento nutricional precisa sair da lógica de “qual alimento eu preciso cortar?” e entrar em uma pergunta muito mais útil:

o que está dificultando o cuidado com meu corpo neste momento e como podemos tornar essa rotina mais sustentável?

Emagrecer com endometriose não precisa significar comer cada vez menos, eliminar grupos alimentares ou viver em guerra com a balança.

Pode significar compreender melhor o próprio corpo, cuidar da alimentação, respeitar os limites impostos pela dor e construir estratégias que façam sentido para a vida real.

E, principalmente, lembrar que o número na balança é apenas uma parte da sua saúde.


Referências

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