Endometriose e SII: qual a relação e o que fazer com os sintomas intestinais?

 

Endometriose e Síndrome do Intestino Irritável (SII) podem acontecer juntas?

Se você tem endometriose e vive com inchaço, dor abdominal, gases, constipação ou diarreia, talvez já tenha pensado: “Será que tudo isso é da endometriose?”

Essa é uma dúvida muito comum.

E existe um motivo para ela ser tão difícil de responder.

A endometriose e a síndrome do intestino irritável (SII) são condições diferentes, mas podem produzir sintomas bastante parecidos. Além disso, elas podem acontecer ao mesmo tempo.

Estudos observacionais e meta-análises mostram que mulheres com endometriose apresentam uma probabilidade maior de também preencher os critérios para SII. Uma meta-análise com 17 estudos e mais de 96 mil participantes encontrou aproximadamente três vezes mais chances de SII em mulheres com endometriose do que em mulheres sem endometriose. A prevalência combinada de SII entre mulheres com endometriose foi de 23,4%, embora tenha variado bastante entre os estudos.

Isso não significa que uma condição cause necessariamente a outra.

Significa que a coexistência é frequente o suficiente para merecer atenção.

E essa distinção é importante porque a forma de lidar com os sintomas intestinais pode mudar bastante quando existe SII além da endometriose.

Neste artigo, vamos entender o que diferencia as duas condições, por que os sintomas podem se confundir, quando vale investigar SII e o que a ciência mostra atualmente sobre alimentação, incluindo a dieta Low FODMAP.

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Endometriose e SII são a mesma coisa?

Não.

A endometriose é uma doença ginecológica crônica na qual há presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Ela pode estar associada a dor pélvica, cólicas menstruais intensas, dor durante ou depois da relação sexual, dor para evacuar, sintomas urinários e dificuldade para engravidar, entre outras manifestações.

A síndrome do intestino irritável, por outro lado, é um distúrbio da interação intestino-cérebro. Ela é caracterizada principalmente por dor abdominal recorrente associada à evacuação e/ou a alterações na frequência ou na forma das fezes.

A SII não significa que o intestino esteja “inflamado” no sentido de uma doença inflamatória intestinal.

Também não significa que exista uma lesão visível no intestino responsável pelos sintomas.

Na SII, fatores como motilidade intestinal, sensibilidade visceral, interação entre intestino e sistema nervoso, microbiota e fatores psicossociais podem participar da manifestação dos sintomas.

Por isso, dizer simplesmente que “endometriose é inflamação e SII também” seria uma explicação muito simplificada.

São condições diferentes, com mecanismos complexos, que podem compartilhar algumas características.


Por que os sintomas parecem tão parecidos?

Imagine duas mulheres.

Uma tem endometriose com sintomas gastrointestinais relacionados ao período menstrual.

Outra tem SII e percebe piora do intestino em diferentes situações, inclusive durante a menstruação.

As duas podem chegar ao consultório dizendo:

“Minha barriga fica muito inchada.”

E ambas podem apresentar dor, gases, constipação ou diarreia.

É aí que começa a confusão.

A endometriose pode causar sintomas intestinais quando há comprometimento intestinal pela doença, mas sintomas gastrointestinais também podem ocorrer sem que exista endometriose diretamente na parede do intestino. O quadro pode envolver mecanismos de dor e hipersensibilidade visceral, além da relação com o ciclo menstrual.

A SII também pode causar dor, distensão, alteração do hábito intestinal e sensação de evacuação incompleta.

Portanto, ter sintomas intestinais não significa automaticamente ter endometriose intestinal.

E ter endometriose também não significa que todos os sintomas digestivos sejam causados pela doença.

Essa é uma das razões pelas quais olhar para os sintomas como um conjunto é tão importante.


Quais sintomas podem aparecer nas duas condições?

Existe bastante sobreposição.

Entre os sintomas que podem aparecer em mulheres com endometriose e também na SII estão:

  • dor abdominal;

  • distensão ou sensação de barriga inchada;

  • alteração do hábito intestinal;

  • constipação;

  • diarreia;

  • gases;

  • dor ou desconforto relacionado à evacuação;

  • sensação de evacuação incompleta.

A endometriose também pode estar associada a sintomas mais caracteristicamente ginecológicos, como cólica menstrual intensa, dor pélvica, dor profunda durante a relação sexual e infertilidade.

Na SII, a relação entre dor abdominal e evacuação é uma característica central do diagnóstico.

Por isso, o padrão dos sintomas importa tanto quanto o sintoma isolado.

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Existe algum sinal que ajude a diferenciar endometriose e SII?

Não existe um único sintoma que permita fazer essa distinção com segurança.

Mas algumas pistas podem ser úteis.

Quando os sintomas pioram perto da menstruação

Mulheres com endometriose frequentemente apresentam sintomas cíclicos. A diretriz da ESHRE orienta que sintomas como dor abdominal e pélvica, dor ao evacuar e outros sintomas relacionados ao ciclo menstrual sejam considerados na avaliação clínica. A própria presença de um diagnóstico prévio de SII pode aparecer como um fator associado à possibilidade de endometriose.

Isso não significa que sintomas que pioram durante a menstruação sejam necessariamente causados pela endometriose.

Mulheres com SII também podem perceber alterações dos sintomas ao longo do ciclo menstrual.

Por isso, observar quando os sintomas aparecem, quanto duram e como se relacionam com a evacuação e com o ciclo pode fornecer informações muito mais úteis do que simplesmente tentar identificar um alimento responsável.


Se tenho endometriose, preciso investigar SII?

Não é necessário presumir que toda mulher com endometriose tenha SII.

Mas se os sintomas intestinais são frequentes, persistentes ou interferem na qualidade de vida, vale conversar com um profissional sobre a possibilidade de existir uma condição gastrointestinal concomitante.

Isso é especialmente relevante quando a mulher apresenta um padrão compatível com SII: dor abdominal recorrente associada à evacuação e alterações do hábito intestinal.

O diagnóstico de SII é clínico. Não existe um exame único que “mostre” a síndrome do intestino irritável.

Ao mesmo tempo, isso não significa que qualquer pessoa com dor abdominal deva receber o rótulo de SII.

O profissional precisa avaliar o conjunto da história, os sintomas, a evolução do quadro e a presença de sinais que indiquem a necessidade de investigação de outras doenças.


E se eu tiver endometriose intestinal?

Aqui existe outra diferença importante.

Endometriose intestinal não é sinônimo de SII.

Na endometriose intestinal, há tecido semelhante ao endométrio associado ao intestino, geralmente envolvendo a superfície externa e podendo atingir diferentes camadas da parede intestinal.

Os sintomas dependem da localização e da extensão da doença.

Pode haver dor para evacuar, especialmente durante a menstruação, alteração do hábito intestinal e, em alguns casos, sangramento retal cíclico.

Já na SII não existe uma lesão de endometriose no intestino.

Uma mulher pode, inclusive, ter endometriose intestinal e SII ao mesmo tempo.

Por isso, não é adequado tentar descobrir a causa dos sintomas apenas eliminando alimentos.

A avaliação clínica continua sendo fundamental.


O que a endometriose tem a ver com a sensibilidade do intestino?

Uma das hipóteses que ajuda a explicar a sobreposição entre endometriose e SII envolve a chamada hipersensibilidade visceral.

Em termos simples, significa que estímulos dentro do sistema digestivo podem ser percebidos como mais intensos ou desconfortáveis.

Uma quantidade de gás ou distensão intestinal que seria pouco perceptível para uma pessoa pode provocar dor ou desconforto importante em outra.

Esse processo não acontece necessariamente porque o intestino está “machucado”.

Ele envolve a maneira como os sinais são captados e processados pelo sistema nervoso.

A dor da endometriose também é complexa e pode envolver mecanismos de sensibilização do sistema nervoso.

Por isso, existe interesse científico em entender melhor a relação entre dor pélvica, sintomas gastrointestinais e interação intestino-cérebro.

Isso ajuda a explicar por que uma mulher pode continuar tendo sintomas intestinais mesmo quando não existe uma alteração estrutural evidente no intestino.


E a microbiota? Existe relação entre endometriose e SII?

Esse é um campo de pesquisa muito interessante, mas ainda em desenvolvimento.

Estudos vêm encontrando diferenças na composição e no funcionamento da microbiota intestinal em pessoas com SII e em mulheres com endometriose. Pesquisadores investigam possíveis relações com permeabilidade intestinal, metabolismo de substâncias, resposta imune e comunicação entre intestino e sistema nervoso.

Mas existe uma diferença importante entre encontrar uma associação e descobrir uma causa.

Ainda não podemos dizer:

“A disbiose causa endometriose.”

Também não podemos dizer que existe um tipo específico de microbiota que precise ser “corrigido” para tratar a doença.

A microbiota é influenciada por muitos fatores, incluindo alimentação, medicamentos, estilo de vida, doenças e ambiente.

Por isso, promessas de “resetar a microbiota” ou “eliminar bactérias ruins” simplificam demais um sistema extremamente complexo.

A pesquisa é promissora.

As conclusões clínicas, porém, ainda são limitadas.


Endometriose e SII: a dieta pode ajudar?

Essa é provavelmente uma das perguntas mais importantes para quem convive com as duas condições.

E aqui temos uma informação nova e relevante.

A dieta Low FODMAP tem boa evidência para o tratamento dos sintomas da SII. Diretrizes gastroenterológicas, como a do American College of Gastroenterology, recomendam uma tentativa limitada da estratégia em pessoas com SII para melhorar os sintomas globais.

Mas isso não significa que a dieta Low FODMAP seja uma “dieta para endometriose”.

A indicação é diferente.

Quando existe endometriose associada a sintomas gastrointestinais, a pergunta mais adequada é:

“Existe um quadro de SII ou sintomas intestinais que possam responder a uma estratégia direcionada?”

E agora temos evidências específicas começando a responder essa pergunta.

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O que é a dieta Low FODMAP?

FODMAP é uma sigla em inglês para um grupo de carboidratos de cadeia curta que são pouco absorvidos ou absorvidos de maneira incompleta no intestino delgado e podem sofrer fermentação no intestino grosso.

Dependendo da pessoa, isso pode contribuir para:

  • produção de gases;

  • distensão;

  • alteração da motilidade;

  • desconforto;

  • dor abdominal.

A dieta Low FODMAP reduz temporariamente a quantidade desses carboidratos na alimentação.

Mas existe um detalhe essencial:

Low FODMAP não significa “sem FODMAP para sempre”.

A estratégia tradicional envolve uma fase inicial de redução, seguida de reintrodução sistemática e personalização.

O objetivo não é manter uma alimentação extremamente restritiva.

O objetivo é descobrir quais grupos de FODMAPs, em quais quantidades, realmente influenciam os sintomas daquela pessoa.

Essa diferença muda completamente a forma como a estratégia deve ser utilizada.


O que a ciência mostra sobre Low FODMAP e SII?

A evidência para SII é consideravelmente mais robusta do que a evidência específica para endometriose.

Uma revisão sistemática com meta-análise em rede publicada no Gut em 2022 avaliou ensaios clínicos sobre a dieta Low FODMAP e encontrou benefício para os sintomas globais da SII em comparação com diferentes abordagens de controle.

O American College of Gastroenterology também recomenda uma tentativa limitada da dieta Low FODMAP em pessoas com SII para melhorar os sintomas globais.

Portanto, quando falamos de SII, temos uma base científica relativamente consistente para considerar a estratégia.

A situação muda quando perguntamos especificamente sobre endometriose.

Até pouco tempo atrás, tínhamos principalmente estudos observacionais.

Hoje já temos um ensaio clínico randomizado específico.

E isso é importante.


Low FODMAP para endometriose: o que o estudo mais recente encontrou?

Em 2025, pesquisadores da Monash University publicaram o estudo EndoFOD, um ensaio clínico randomizado, controlado e com desenho crossover.

Participaram 35 mulheres com endometriose e sintomas gastrointestinais mal controlados.

As participantes seguiram por quatro semanas uma dieta Low FODMAP e, em outro período, uma dieta controle nutricionalmente baseada nas diretrizes alimentares australianas. Houve um período de washout entre as intervenções.

Os resultados foram bastante interessantes.

60% das participantes responderam à dieta Low FODMAP, em comparação com 26% durante a dieta controle.

Também houve melhora da intensidade geral dos sintomas gastrointestinais, dor abdominal, distensão abdominal, consistência das fezes e qualidade de vida relacionada aos sintomas gastrointestinais e à endometriose.

Esse estudo representa um avanço importante porque, pela primeira vez, temos um ensaio clínico controlado específico avaliando a estratégia em mulheres com endometriose e sintomas gastrointestinais.

Mas precisamos manter a perspectiva.

Foram apenas 35 participantes.

A intervenção durou quatro semanas.

E os pesquisadores destacam que ainda precisamos confirmar esses resultados em condições de vida real e em populações maiores.

Portanto, podemos dizer que a evidência para Low FODMAP em sintomas gastrointestinais associados à endometriose ficou mais forte, mas ainda é muito menor do que a evidência disponível para SII.


E o estudo anterior sobre endometriose e Low FODMAP?

Antes do ensaio EndoFOD, já existia um estudo observacional bastante citado.

Em 2017, Moore e colaboradores avaliaram mulheres atendidas em um serviço especializado em SII. Entre as 160 mulheres que preenchiam critérios para SII, 36% também tinham endometriose.

Após quatro semanas de Low FODMAP, 72% das mulheres com endometriose relataram melhora superior a 50% nos sintomas intestinais, comparadas a 49% das mulheres com SII sem endometriose.

É um resultado interessante.

Mas o desenho do estudo limita o quanto podemos concluir.

Não houve randomização para Low FODMAP versus uma dieta controle. Todas receberam orientação para a intervenção.

Isso significa que não podemos separar completamente o efeito da dieta de outros fatores que podem influenciar os sintomas.

O estudo ajudou a levantar a hipótese.

O ensaio clínico de 2025 trouxe evidência experimental mais forte.

E a pesquisa continua evoluindo.


Então toda mulher com endometriose deveria fazer Low FODMAP?

Não.

E esse é um ponto que merece bastante atenção.

A dieta Low FODMAP foi desenvolvida como uma estratégia para sintomas gastrointestinais, especialmente no contexto da SII.

Ela não é uma dieta obrigatória para quem tem endometriose.

Se você tem endometriose e não apresenta sintomas intestinais relevantes, não existe motivo para começar uma dieta Low FODMAP apenas porque você tem o diagnóstico.

E mesmo entre mulheres com sintomas intestinais, a estratégia precisa fazer sentido.

Uma alimentação muito restritiva pode dificultar o consumo adequado de fibras, cálcio e outros nutrientes, além de tornar as refeições mais difíceis socialmente.

Por isso, mais restrição não significa necessariamente melhor resultado.


E se eu tiver endometriose e SII ao mesmo tempo?

Nesse cenário, a dieta pode ter um papel mais claro.

Se existe um diagnóstico ou quadro compatível com SII e os sintomas incluem distensão, dor abdominal, gases, diarreia, constipação ou alteração do hábito intestinal, uma abordagem nutricional direcionada pode ajudar a reduzir a carga de sintomas.

A Low FODMAP pode ser uma dessas ferramentas.

Mas ela não precisa ser a primeira e nem a única estratégia.

Dependendo do caso, ajustes mais simples podem ser suficientes: regularidade das refeições, distribuição de fibras, adequação da quantidade de gordura, consumo de cafeína, álcool, bebidas gaseificadas, tamanho das refeições e outros fatores individuais.

A dieta precisa começar pelo problema que estamos tentando resolver.

Não pela lista de alimentos que estão na moda retirar.


Preciso cortar glúten e lactose?

Não necessariamente.

Essa é uma confusão bastante comum.

Glúten e lactose não são sinônimos de FODMAP.

A lactose é um FODMAP quando consumida em quantidades que excedem a capacidade individual de digestão e absorção. Já o glúten é uma proteína e não é um FODMAP.

Alguns alimentos que contêm trigo são ricos em frutanos, que são FODMAPs. Por isso, uma pessoa pode perceber melhora ao reduzir determinados produtos à base de trigo durante uma intervenção Low FODMAP, mas isso não significa automaticamente que ela tenha intolerância ao glúten.

Essa distinção é especialmente importante porque muitas mulheres começam simultaneamente dietas “sem glúten”, “anti-inflamatórias”, “sem lactose” e Low FODMAP.

Depois fica praticamente impossível saber o que realmente fez diferença.

E a alimentação vai ficando cada vez mais restritiva.


E os alimentos que “causam inflamação”?

Eu teria bastante cuidado com essa linguagem.

Não existe uma lista universal de alimentos que todas as mulheres com endometriose precisam retirar para “desinflamar o intestino” ou “desinflamar a endometriose”.

A alimentação deve ser analisada como um padrão alimentar, e não como uma coleção de alimentos bons e ruins.

No contexto da SII, alguns carboidratos fermentáveis podem aumentar sintomas em determinadas pessoas.

Isso não significa que esses alimentos sejam “inflamatórios” ou prejudiciais para todo mundo.

Um alimento pode ser muito nutritivo e, ainda assim, causar sintomas gastrointestinais em uma pessoa com hipersensibilidade visceral.

É justamente por isso que a estratégia Low FODMAP trabalha com quantidade, tolerância individual e reintrodução, em vez de simplesmente classificar alimentos como proibidos.


Como fazer Low FODMAP sem transformar a alimentação em uma prisão?

Essa é uma das partes mais importantes.

Uma intervenção Low FODMAP bem conduzida não termina na fase de restrição.

A fase inicial é apenas uma etapa.

Depois vem a reintrodução dos grupos de FODMAPs de maneira estruturada, observando tolerância e quantidade.

A partir daí, a alimentação deve voltar a ser o mais ampla possível.

Isso é importante tanto para a qualidade nutricional quanto para a relação com a comida.

Também existem razões para não prolongar uma dieta restritiva sem necessidade. Estudos mostram que a redução de FODMAPs pode modificar aspectos da microbiota intestinal, embora a relevância clínica dessas mudanças ainda esteja sendo estudada.

Por isso, o objetivo não deveria ser:

“Como faço para comer o mínimo possível de FODMAPs?”

E sim:

“Qual é a menor quantidade de restrição necessária para controlar meus sintomas e manter uma alimentação adequada e prazerosa?”

Essa é uma pergunta muito mais útil.


O que a ciência mostra hoje?

Se tivéssemos que resumir a evidência atual em poucas conclusões, eu diria:

Endometriose e SII podem coexistir com frequência. Meta-análises mostram uma associação consistente entre as duas condições, com risco de SII aproximadamente duas a três vezes maior em mulheres com endometriose.

Os sintomas podem se sobrepor. Dor abdominal, distensão, constipação, diarreia e desconforto relacionado à evacuação podem aparecer em diferentes contextos.

Ter sintomas intestinais não significa automaticamente ter endometriose intestinal. A avaliação precisa considerar história clínica, padrão dos sintomas e investigação adequada.

A SII tem tratamento nutricional baseado em evidências. A dieta Low FODMAP é uma das estratégias recomendadas para uma tentativa limitada em pacientes com SII.

A evidência específica para Low FODMAP na endometriose está crescendo. O ensaio clínico EndoFOD de 2025 encontrou melhora significativa dos sintomas gastrointestinais e da qualidade de vida em mulheres com endometriose e sintomas gastrointestinais mal controlados.

Ainda precisamos de mais estudos. A revisão sistemática de 2026 encontrou apenas cinco estudos clínicos específicos e destacou limitações importantes na quantidade e no desenho das pesquisas disponíveis.

Portanto, a mensagem não é “Low FODMAP trata endometriose”.

A mensagem é mais precisa:

Low FODMAP pode ser uma ferramenta para sintomas gastrointestinais em mulheres com endometriose, especialmente quando existe SII ou um quadro intestinal semelhante, mas a estratégia precisa ser individualizada.


Aplicação prática: por onde começar?

Se você tem endometriose e sintomas intestinais, eu começaria observando o padrão.

Não apenas “o que eu comi?”.

Observe também:

Quando o sintoma aparece?

Ele está relacionado à evacuação?

Acontece mais perto da menstruação?

Existe constipação, diarreia ou alternância entre as duas?

O inchaço aparece depois de refeições grandes ou em determinados horários?

Há dor para evacuar?

Existe algum sintoma ginecológico associado?

Esse tipo de informação ajuda muito mais do que uma lista genérica de alimentos proibidos.

Também vale registrar medicamentos e suplementos utilizados, porque eles podem influenciar sintomas gastrointestinais.

E, principalmente, procure avaliação quando os sintomas são persistentes, intensos ou estão comprometendo sua qualidade de vida.

A presença de sangue nas fezes, perda de peso não intencional, anemia, febre, sintomas noturnos importantes ou histórico familiar relevante de doenças gastrointestinais são exemplos de situações que merecem avaliação médica e não devem ser simplesmente atribuídas à SII.


Conclusão

Se você tem endometriose e sente que seu intestino também “entrou na história”, saiba que isso não é incomum.

Endometriose e SII são condições diferentes, mas podem coexistir e compartilhar muitos sintomas. As pesquisas mostram uma associação consistente entre as duas, embora ainda existam perguntas importantes sobre os mecanismos que explicam essa relação.

A boa notícia é que hoje temos uma compreensão melhor do que tínhamos alguns anos atrás.

Para mulheres com SII, a dieta Low FODMAP já possui uma base científica relevante.

Para mulheres com endometriose e sintomas gastrointestinais, as evidências específicas ainda são mais recentes, mas começam a apontar para um possível benefício. O ensaio clínico EndoFOD, publicado em 2025, mostrou melhora significativa dos sintomas gastrointestinais e da qualidade de vida após quatro semanas de uma intervenção Low FODMAP.

Isso é promissor.

Ainda não significa que toda mulher com endometriose deva fazer Low FODMAP.

E muito menos que a dieta precise ser mantida de forma extremamente restritiva.

O objetivo da nutrição não é fazer você ter medo de comer.

É entender o que está acontecendo, identificar quais estratégias realmente fazem sentido para você e encontrar a menor quantidade de restrição necessária para melhorar seus sintomas sem empobrecer sua alimentação.

Quando endometriose e SII aparecem juntas, essa diferença pode ser especialmente importante.

Porque você não precisa escolher entre ignorar os sintomas intestinais e viver em uma dieta cheia de proibições.

Existe um caminho entre esses dois extremos, e é justamente aí que uma abordagem nutricional individualizada pode fazer diferença.


Referências científicas

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  9. Watrowski R, Kostov S, Schäfer SD, et al. Low-FODMAP Diet for Gastrointestinal Symptoms in Endometriosis: A Systematic Review. Nutrients. 2026;18:2164.

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