Síndrome do intestino irritável: como controlar gases, estufamento e dor abdominal
“Parece que tem uma bola de ar dentro da minha barriga.”
“Depois que eu como, minha barriga aumenta muito.”
“Às vezes tenho tanto gás que sinto dor.”
Se você tem síndrome do intestino irritável (SII), provavelmente já descreveu seus sintomas de alguma dessas formas.
E existe uma característica particularmente frustrante: nem sempre a intensidade do desconforto parece proporcional ao que você comeu. Um dia você pode fazer uma refeição aparentemente simples e terminar com a barriga estufada e dolorida. Em outro, comer os mesmos alimentos e se sentir bem.
Isso não significa que “é psicológico” e também não significa necessariamente que você tenha algum alimento proibido.
A síndrome do intestino irritável é um distúrbio da interação intestino-cérebro, no qual alterações na motilidade intestinal, na sensibilidade visceral, na comunicação entre intestino e sistema nervoso e em outros mecanismos podem contribuir para os sintomas. Gases, distensão, alteração do hábito intestinal e dor podem aparecer juntos, mas não existe uma única causa responsável por tudo.
E essa é uma das razões pelas quais simplesmente “cortar alimentos que dão gases” nem sempre resolve.
Neste artigo, vamos entender por que a SII causa gases e dor abdominal, qual é a diferença entre gases, estufamento e distensão, por que algumas mulheres sentem tanta dor mesmo sem uma quantidade excessiva de gás e quais estratégias alimentares realmente têm evidência para ajudar.
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Por que a síndrome do intestino irritável causa tantos gases?
Produzir gases no intestino é normal.
Durante a digestão, parte dos carboidratos que não é absorvida no intestino delgado chega ao cólon. Ali, as bactérias intestinais fermentam esses componentes e produzem gases.
Portanto, ter gases não significa que exista alguma coisa errada acontecendo.
O problema na SII pode estar menos relacionado à existência do gás e mais à forma como o intestino lida com ele.
Algumas pessoas apresentam maior sensibilidade às distensões intestinais. Isso significa que uma quantidade de conteúdo ou gás que seria pouco perceptível para outra pessoa pode provocar pressão, desconforto ou dor.
Além disso, alterações na motilidade podem interferir na movimentação do conteúdo intestinal. Constipação, por exemplo, pode dificultar a passagem das fezes e contribuir para sensação de pressão, distensão e gases.
Por isso, duas pessoas podem produzir uma quantidade semelhante de gás e ter experiências completamente diferentes.
A literatura sobre distensão abdominal mostra que a percepção de “gás preso” é complexa e pode envolver sensibilidade visceral, trânsito intestinal, fermentação, microbiota e alterações na coordenação entre o diafragma e a parede abdominal.
Gás, barriga estufada e distensão são a mesma coisa?
Não exatamente.
Embora essas palavras sejam usadas como sinônimos no dia a dia, elas descrevem fenômenos diferentes.
Estufamento ou bloating é principalmente uma sensação. A mulher pode sentir pressão, plenitude, aumento de volume ou a impressão de que existe muito gás dentro do abdômen.
Distensão abdominal, por outro lado, é uma alteração observável no tamanho ou no contorno do abdômen.
As duas coisas podem acontecer juntas, mas não obrigatoriamente.
Uma mulher pode sentir que está extremamente estufada sem apresentar uma grande mudança objetiva na circunferência abdominal. Outra pode realmente apresentar aumento visível do abdômen ao longo do dia.
Na SII, essas manifestações são frequentes e podem ter múltiplos mecanismos.
Essa diferença é importante porque tentar tratar toda sensação de estufamento simplesmente como “excesso de gás” pode levar a estratégias que não atacam o verdadeiro mecanismo envolvido.
Mas por que o gás pode doer tanto?
Essa é uma das perguntas que mais escuto.
A explicação passa pela hipersensibilidade visceral.
Imagine que o intestino seja capaz de perceber o que acontece dentro dele. Essa percepção é necessária para que o organismo regule movimentos intestinais e evacuação.
Na SII, essa percepção pode estar aumentada.
Assim, a distensão provocada pelo conteúdo intestinal pode ser percebida como mais desconfortável ou dolorosa.
Isso ajuda a explicar por que dizer simplesmente “você precisa eliminar mais gases” não resolve o problema.
A dor na SII também não deve ser interpretada como imaginação ou exagero. Ela é um sintoma real associado a alterações na comunicação entre o intestino e o sistema nervoso.
O próprio diagnóstico da SII depende da presença de dor abdominal associada a alterações do hábito intestinal. Os critérios de Roma IV consideram a dor abdominal recorrente como elemento central do diagnóstico.
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O que os alimentos têm a ver com os gases?
Alguns alimentos realmente podem aumentar a produção de gás ou alterar a quantidade de água presente no intestino.
É aqui que entram os FODMAPs.
FODMAP é o nome dado a um grupo de carboidratos de cadeia curta que são pouco absorvidos no intestino delgado e podem ser rapidamente fermentados pelas bactérias intestinais.
Entre eles estão diferentes tipos de carboidratos encontrados naturalmente em alimentos como algumas frutas, legumes, leguminosas, leite e derivados e trigo.
Quando chegam ao intestino, esses carboidratos podem aumentar o conteúdo de água e a produção de gases. Em pessoas com SII, isso pode contribuir para sintomas devido à maior sensibilidade intestinal.
Isso não significa que FODMAPs sejam “alimentos ruins”.
Eles fazem parte de uma alimentação normal e muitos alimentos ricos em FODMAPs também fornecem fibras, vitaminas, minerais e outros compostos importantes.
O problema é a tolerância individual.
Então eu preciso fazer uma dieta low FODMAP?
Não necessariamente.
A dieta low FODMAP é uma das estratégias alimentares com melhor evidência para redução dos sintomas da SII. O American College of Gastroenterology recomenda uma tentativa limitada da dieta em pessoas com SII para melhorar os sintomas globais.
Uma meta-análise e meta-análise em rede publicada no Gut avaliou 13 ensaios clínicos randomizados, com 944 pessoas, e encontrou benefício da dieta low FODMAP em relação à dieta habitual para sintomas globais da SII. Ela também ficou entre as intervenções mais eficazes para dor abdominal e para estufamento ou distensão.
Isso é uma evidência importante.
Só que existe uma informação igualmente importante: low FODMAP não significa comer pouco FODMAP para sempre.
A estratégia tradicional envolve três etapas: redução inicial dos FODMAPs, reintrodução sistemática e posterior personalização.
A ideia não é terminar com uma lista enorme de alimentos proibidos.
É descobrir quais grupos de FODMAPs, em quais quantidades e combinações, realmente desencadeiam sintomas para aquela pessoa.
A diretriz da British Society of Gastroenterology recomenda que a dieta seja conduzida com acompanhamento de profissional capacitado e que os alimentos sejam reintroduzidos conforme a tolerância.
E se o problema não for apenas o alimento?
Essa é uma questão fundamental.
Uma pessoa pode fazer uma dieta extremamente restritiva e continuar com dor, gases e estufamento.
Isso acontece porque os sintomas da SII não dependem exclusivamente da alimentação.
Sono ruim, estresse, alterações do trânsito intestinal, constipação, diarreia e maior sensibilidade visceral podem participar do quadro.
O eixo intestino-cérebro também importa.
Isso não significa que “a SII está na sua cabeça”. Significa que intestino e cérebro estão em comunicação constante e que essa comunicação influencia motilidade, percepção de dor e resposta aos estímulos intestinais.
Por isso, estratégias que atuam nessa comunicação, como determinadas terapias psicológicas direcionadas ao intestino, podem fazer parte do tratamento. A diretriz do ACG sugere terapias psicogastrointestinais para melhora global dos sintomas da SII.
Constipação pode estar piorando seus gases
Se você tem SII com constipação, vale olhar para o funcionamento intestinal antes de simplesmente retirar mais alimentos.
Fezes ressecadas, evacuações pouco frequentes e sensação de evacuação incompleta podem contribuir para desconforto abdominal e distensão.
A fibra pode ajudar, mas existe uma diferença importante entre os tipos.
As diretrizes destacam que fibras solúveis, como o psyllium, apresentam evidência de benefício para sintomas globais e dor abdominal na SII.
Já aumentar rapidamente a quantidade de fibras insolúveis, como farelo de trigo, pode piorar dor e estufamento em algumas pessoas. Por isso, a recomendação é começar com quantidades menores e aumentar gradualmente conforme a tolerância.
Isso explica por que a orientação “coma mais fibras” pode ser insuficiente.
Para uma mulher com SII e constipação, o tipo de fibra, a quantidade, a hidratação, a rotina intestinal e a resposta individual precisam ser considerados em conjunto.
E se eu tiver diarreia?
Na SII com diarreia, a estratégia é diferente.
Algumas pessoas percebem piora dos sintomas após grandes quantidades de determinados carboidratos fermentáveis, adoçantes poliol ou refeições muito volumosas.
A dieta low FODMAP pode ser útil em pessoas selecionadas, mas também não é necessário retirar dezenas de alimentos automaticamente.
É importante investigar se realmente existe SII com diarreia e excluir condições que podem produzir sintomas semelhantes.
O ACG recomenda, por exemplo, considerar investigação para doença celíaca em pacientes com suspeita de SII e sintomas predominantes de diarreia. Em determinadas situações, a calprotectina fecal pode ajudar a diferenciar SII de doença inflamatória intestinal.
Por isso, o diagnóstico de SII deve ser feito pelo gastroenterologista. A nutricionista entra no manejo nutricional depois que o quadro foi adequadamente avaliado.
O que a ciência mostra sobre reduzir gases e dor na SII?
A evidência atual permite algumas conclusões importantes.
A primeira é que a alimentação pode melhorar os sintomas da SII, mas não existe uma única dieta que funcione para todas as pessoas.
A low FODMAP apresenta evidência consistente para redução de sintomas globais, dor e estufamento. Meta-análises mostram benefício em comparação com dietas controle.
A segunda é que não precisamos interpretar esse benefício como prova de que “FODMAPs fazem mal”.
A dieta funciona, em parte, porque reduz temporariamente a exposição a carboidratos fermentáveis que podem desencadear sintomas em pessoas suscetíveis. O objetivo clínico é encontrar a menor restrição necessária.
Existe também preocupação sobre os efeitos da restrição prolongada sobre a microbiota intestinal. Uma meta-análise de nove ensaios clínicos encontrou redução consistente de Bifidobacteria durante a dieta low FODMAP, embora não tenha identificado alterações consistentes na diversidade global da microbiota ou nos ácidos graxos de cadeia curta.
Isso reforça por que a fase de reintrodução e personalização é tão importante.
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Uma abordagem mediterrânea pode ser uma alternativa interessante
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 comparou uma dieta mediterrânea com redução de FODMAPs a orientações dietéticas convencionais em 108 pessoas com SII sem constipação.
O grupo que recebeu a intervenção mediterrânea com baixo teor de FODMAP apresentou maior melhora dos sintomas e da qualidade de vida durante o acompanhamento.
É um estudo interessante porque mostra uma possibilidade diferente da ideia de que o tratamento da SII precisa ser uma dieta extremamente restritiva.
Ainda assim, trata-se de um único ensaio clínico e seus resultados precisam ser reproduzidos em outros estudos e populações.
Probióticos ajudam nos gases?
Essa resposta é menos simples do que aparece nas redes sociais.
Probióticos são frequentemente vendidos como solução para “equilibrar a microbiota” e acabar com gases.
A evidência não permite fazer uma recomendação universal.
Estudos mostram resultados diferentes entre espécies e cepas. Algumas podem beneficiar determinados sintomas, enquanto outras não produzem efeito significativo.
A diretriz britânica considera razoável que uma pessoa que queira experimentar probióticos faça uma tentativa por período limitado, interrompendo se não houver benefício. Ao mesmo tempo, a AGA não recomenda probióticos especificamente para tratar distensão e estufamento abdominal.
Portanto, “probiótico para gases” não é uma recomendação suficientemente específica.
O que fazer na prática quando a barriga está cheia de gases?
O primeiro passo é tentar identificar o padrão dos sintomas, em vez de simplesmente aumentar a quantidade de alimentos retirados.
Observe, por exemplo, se o desconforto acontece principalmente:
depois de refeições muito grandes;
quando você está constipada;
após determinados grupos de carboidratos fermentáveis;
em períodos de maior estresse;
quando passa muitas horas sem comer e depois faz uma refeição grande;
ou em momentos específicos do ciclo menstrual.
Esse padrão pode ser mais útil do que uma lista aleatória de “alimentos que dão gases”.
Também vale prestar atenção à velocidade das refeições. Comer muito rapidamente, falar enquanto come, mascar chiclete e consumir bebidas gaseificadas podem aumentar a ingestão de ar e contribuir para sintomas de gases e distensão em algumas pessoas. A avaliação de sintomas de arrotos, aerofagia e distensão faz parte das recomendações da AGA para esses quadros.
Se houver constipação, ela precisa ser tratada.
Se houver um alimento claramente associado aos sintomas, sua quantidade e frequência podem ser avaliadas.
E, se os sintomas forem persistentes, intensos ou estiverem comprometendo sua alimentação e qualidade de vida, o ideal é buscar avaliação profissional em vez de continuar retirando alimentos por conta própria.
O que você não precisa fazer
Você não precisa eliminar glúten simplesmente porque tem SII.
A diretriz britânica não recomenda uma dieta sem glúten como estratégia geral para SII, especialmente porque a evidência é limitada e é importante diferenciar SII de doença celíaca.
Você também não precisa retirar leite, feijão, frutas, cebola, alho ou trigo automaticamente.
Esses alimentos podem ser relevantes para algumas pessoas, dependendo do tipo e da quantidade de FODMAPs e da tolerância individual. Isso é diferente de dizer que são “inflamatórios” ou que devem ser evitados por todas as mulheres com SII.
E uma alimentação cada vez mais restritiva não significa necessariamente uma alimentação cada vez mais adequada.
Uma revisão recente sobre distensão abdominal chama atenção justamente para esse problema: quando a mulher interpreta todo estufamento como intolerância alimentar, pode acabar eliminando muitos alimentos sem resolver o sintoma e ainda aumentar o risco de inadequação nutricional.
Quando gases e dor precisam ser investigados?
Nem toda dor abdominal é SII.
A presença de sinais de alerta pode indicar a necessidade de investigação médica mais aprofundada.
Sangramento nas fezes, perda de peso involuntária, anemia, febre, sintomas que começam em idade mais avançada, histórico familiar relevante de câncer colorretal ou doença inflamatória intestinal e alterações importantes ou progressivas do quadro merecem avaliação médica.
Também é importante investigar quando os sintomas são muito intensos, estão piorando ou quando o diagnóstico de SII ainda não foi estabelecido.
A SII é diagnosticada principalmente pela história clínica e pelo padrão dos sintomas, mas isso não significa que qualquer pessoa com dor e gases deva receber esse diagnóstico automaticamente. As diretrizes atuais favorecem uma estratégia diagnóstica positiva, acompanhada de exames direcionados quando houver indicação clínica.
Aplicação prática: por onde começar?
Se eu estivesse conversando com você em uma consulta, eu não começaria entregando uma lista enorme de alimentos proibidos.
Começaria tentando entender o seu padrão de sintomas.
Qual é o tipo de SII? Predomina constipação, diarreia ou os dois? A dor melhora depois de evacuar? O estufamento aparece ao longo do dia? Existe relação com refeições específicas? Como está a frequência e a consistência das fezes?
Depois disso, podemos avaliar a alimentação habitual.
Talvez pequenas mudanças já sejam suficientes.
Em outras situações, pode fazer sentido uma estratégia low FODMAP estruturada, por tempo limitado e com posterior reintrodução.
Para algumas mulheres, o foco maior será tratar constipação. Para outras, será trabalhar a distribuição das refeições, a quantidade de determinados carboidratos fermentáveis ou a relação entre alimentação e sintomas.
E para outras, a alimentação será apenas uma parte do tratamento.
Essa individualização é especialmente importante porque o objetivo não é fazer você comer o mínimo possível para não ter gases.
O objetivo é conseguir comer de forma variada, adequada e confortável, identificando o que realmente influencia os seus sintomas.
Concluindo
Gases, barriga estufada e dor abdominal são sintomas muito comuns na síndrome do intestino irritável, mas não devem ser reduzidos à ideia de que existe “gás demais” no intestino.
A forma como o intestino se movimenta, a quantidade e o tipo de carboidratos fermentáveis consumidos, a sensibilidade visceral, a constipação, a comunicação entre intestino e cérebro e outros fatores podem participar do quadro.
A dieta low FODMAP é uma das estratégias alimentares com melhor evidência para SII e pode melhorar dor, estufamento e sintomas globais. Ela não deve ser entendida como uma dieta para a vida inteira, e sim como uma intervenção estruturada que deve levar à reintrodução e à personalização.
E talvez essa seja a parte mais importante: você não precisa passar a vida eliminando alimentos para tentar controlar sua barriga.
O tratamento da SII não deveria ser uma corrida para descobrir quantos alimentos você consegue retirar.
Deveria ser um processo para descobrir o que realmente desencadeia os seus sintomas, o que pode ser ajustado e como manter uma alimentação nutricionalmente adequada enquanto você melhora sua qualidade de vida.
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