Endometriose e a relação com ansiedade e depressão
Entenda a relação entre endometriose, ansiedade e depressão, o papel da dor, do sono e da qualidade de vida e o que a ciência mostra.
A endometriose costuma ser lembrada principalmente pela dor pélvica, cólica menstrual intensa, alterações intestinais, dor nas relações sexuais ou dificuldade para engravidar. Mas existe outra parte da doença que merece atenção: a saúde mental.
Mulheres com endometriose apresentam, em média, mais sintomas de ansiedade e depressão do que mulheres sem a doença. Isso foi observado em revisões sistemáticas e meta-análises que reuniram diferentes estudos sobre o tema.
Mas isso não significa que a endometriose “cause depressão” de maneira simples ou que toda mulher com endometriose desenvolverá um transtorno de ansiedade.
A relação é mais complexa. Dor persistente, sono ruim, fadiga, sintomas gastrointestinais, alterações na vida sexual, preocupações com fertilidade e o impacto da doença na rotina podem se somar ao longo do tempo. E a própria experiência de conviver com uma condição crônica pode afetar a saúde emocional.
Neste artigo, vamos entender o que a ciência realmente mostra sobre endometriose, ansiedade e depressão, por que essas condições podem aparecer juntas e como esse conhecimento pode mudar a forma de cuidar da doença.

Foto por Mario Spencer / Pexels
Endometriose e saúde mental: existe uma relação?
Sim. A associação entre endometriose e sintomas de ansiedade e depressão é observada de forma consistente na literatura.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022 reuniu 47 estudos na revisão qualitativa e 17 estudos na meta-análise. As mulheres com endometriose apresentaram mais sintomas de depressão e ansiedade do que os controles saudáveis. A diferença, porém, desapareceu quando elas foram comparadas com mulheres que também apresentavam outras condições de dor pélvica crônica.
Esse detalhe é importante.
Ele sugere que parte dessa associação pode estar relacionada à experiência de viver com dor crônica, e não necessariamente a algo exclusivo da endometriose.
Isso não diminui a importância da questão. Pelo contrário: mostra que o cuidado precisa considerar tanto a doença quanto o impacto que seus sintomas têm na vida da mulher.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou grande variação na frequência de sintomas depressivos e de ansiedade entre os estudos analisados. Essa variação aconteceu, em parte, porque os trabalhos utilizaram diferentes instrumentos para avaliar saúde mental e incluíram populações diferentes. Mesmo assim, o conjunto dos estudos apontou uma associação entre endometriose, sintomas de ansiedade, sintomas depressivos e pior qualidade de vida.
Por que a endometriose pode afetar a saúde emocional?
Não existe uma única explicação.
A endometriose é uma doença crônica e pode envolver dor persistente, inflamação, alterações na função intestinal e urinária, dor durante as relações sexuais, fadiga e dificuldades relacionadas à fertilidade. Quando esses sintomas interferem repetidamente na rotina, eles podem ter consequências emocionais.
Imagine, por exemplo, uma mulher que precisa cancelar compromissos todos os meses por causa da dor. Em outros períodos, ela pode evitar exercícios porque teme piorar os sintomas. Pode dormir mal durante a menstruação, sentir dor nas relações ou passar anos tentando entender por que seu corpo não funciona como esperava.
Essas experiências não são apenas acontecimentos isolados. Elas podem se acumular.
Na revisão de 2022, além da dor, fatores associados a sintomas de ansiedade e depressão incluíram qualidade de vida, sono, fadiga, função sexual, sintomas gastrointestinais, outras doenças, autoestima, estratégias de enfrentamento e sensibilização à dor.
Por isso, quando uma mulher com endometriose apresenta ansiedade ou depressão, vale olhar para toda essa história, e não apenas para a presença das lesões de endometriose.
A dor tem um papel importante nessa relação
A dor crônica merece atenção especial.
Quando a dor se torna frequente, o sistema nervoso pode passar por mudanças na forma como processa os estímulos dolorosos. A experiência da dor também pode gerar medo de determinadas atividades, preocupação com a próxima crise e alterações no sono e na rotina.
Isso pode criar um ciclo difícil:
dor → piora do sono e da rotina → maior desgaste → sofrimento emocional → maior dificuldade para lidar com a dor
Esse ciclo não significa que a dor seja “psicológica”. A dor da endometriose é real e tem mecanismos biológicos próprios.
Ao mesmo tempo, fatores emocionais podem influenciar a maneira como o sistema nervoso processa a dor. Biologia e experiência individual não são explicações concorrentes.
A literatura recente também tem investigado a interação entre dor crônica, inflamação, estresse e mecanismos relacionados à sensibilização do sistema nervoso. Esses mecanismos são promissores para entender a relação entre endometriose e sintomas psicológicos, mas ainda não permitem afirmar que existe uma única via responsável por essa associação.
Ansiedade e depressão podem piorar os sintomas?
A relação provavelmente funciona nos dois sentidos, mas isso não significa que ansiedade ou depressão sejam a causa da endometriose.
Uma mulher que sente dor frequentemente pode desenvolver maior ansiedade antecipatória: “Será que hoje vou conseguir trabalhar?”, “Será que vou conseguir sair?”, “Será que a relação sexual vai doer?”.
Ao mesmo tempo, ansiedade, depressão, privação de sono e estresse podem alterar a percepção e a tolerância à dor.
É uma relação complexa entre sintomas físicos e psicológicos.
Uma revisão de 2024 que avaliou fatores cognitivos relacionados à depressão em mulheres com endometriose encontrou associações entre maior depressão e fatores como ruminação, percepção de baixo controle sobre a doença e catastrofização da dor. Porém, os autores também destacaram limitações importantes na qualidade e na representatividade dos estudos disponíveis, especialmente para ansiedade.
Isso é diferente de dizer que a mulher “pensa negativo demais” ou que precisa simplesmente “mudar a mentalidade”.
Esses fatores fazem parte da experiência da dor e podem ser trabalhados dentro de um cuidado adequado, principalmente com profissionais capacitados em dor crônica.
E o sono?
Sono e saúde mental também estão intimamente relacionados.
A dor pode dificultar o sono. Uma noite mal dormida pode aumentar o cansaço e dificultar a regulação emocional no dia seguinte. Quando isso se repete por semanas ou meses, o impacto sobre a qualidade de vida pode ser significativo.
Na endometriose, a qualidade do sono aparece entre os fatores associados a sintomas de ansiedade e depressão.
Por isso, perguntar sobre sono durante o acompanhamento de uma mulher com endometriose não é um detalhe.
Dormir melhor não substitui o tratamento da endometriose, mas pode fazer parte de uma abordagem mais ampla para melhorar funcionamento diário, disposição e capacidade de lidar com a dor.
Endometriose pode afetar a qualidade de vida?
Sim.
E qualidade de vida é um conceito mais amplo do que simplesmente medir a intensidade da dor.
Uma mulher pode ter dor moderada, por exemplo, mas sentir que a doença interfere profundamente no trabalho, nos relacionamentos, na atividade física, na alimentação, na vida sexual ou nos planos para o futuro.
A revisão sistemática de 2023 encontrou comprometimento significativo da qualidade de vida entre mulheres com endometriose, independentemente do instrumento utilizado para avaliá-la.
Por isso, o sucesso do tratamento não deveria ser pensado apenas em termos de “quanto diminuiu a lesão” ou “qual foi a intensidade da dor no último mês”.
Também importa saber:
Como está seu sono?
Você consegue trabalhar e estudar como gostaria?
Consegue se movimentar?
Está conseguindo se alimentar adequadamente?
Como está sua vida social?
E sua vida sexual?
Como está seu estado emocional?
Essas perguntas ajudam a entender o impacto real da doença.

Foto por Ron Lach / Pexels
O que a ciência mostra sobre tratamentos psicológicos?
Essa é uma área que vem crescendo.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2024 avaliou sete ensaios clínicos randomizados, envolvendo 757 mulheres com endometriose. Os estudos investigaram diferentes intervenções psicológicas.
Os resultados sugeriram melhora de sintomas de ansiedade e depressão, além de benefícios em alguns aspectos da dor e da qualidade de vida.
Isso não significa que terapia psicológica seja um tratamento para eliminar a endometriose.
Significa que intervenções psicológicas podem ser úteis para lidar com aspectos que acompanham a doença, como dor crônica, sofrimento emocional, estratégias de enfrentamento e impacto na rotina.
A evidência, porém, ainda tem limitações. Os estudos foram poucos, com diferentes tipos de intervenção e amostras relativamente pequenas. Os próprios autores classificaram parte das evidências como de baixa ou moderada certeza e destacaram a necessidade de mais ensaios clínicos.
Ainda assim, o conjunto dos dados apoia uma visão importante: cuidar da saúde mental pode fazer parte do tratamento integral da mulher com endometriose.
E a alimentação pode ajudar na ansiedade e na depressão?
Essa é uma pergunta muito comum, especialmente quando a mulher já está tentando mudar a alimentação por causa da endometriose.
Uma alimentação adequada é importante para a saúde geral e pode contribuir para energia, adequação nutricional, funcionamento intestinal e qualidade da dieta. Mas não existe, até o momento, uma dieta específica que possa ser considerada tratamento para ansiedade ou depressão associadas à endometriose.
Também não há evidência suficiente para recomendar que todas as mulheres com endometriose retirem glúten, lactose, açúcar, carne ou qualquer outro alimento com o objetivo de melhorar a saúde mental.
A relação entre alimentação, microbiota, inflamação e saúde mental é uma área ativa de pesquisa. Revisões recentes sobre endometriose discutem possíveis conexões entre microbiota intestinal, inflamação, estresse oxidativo, dor e sintomas psicológicos. Entretanto, grande parte dessa literatura ainda é composta por estudos observacionais, mecanismos experimentais ou evidências clínicas preliminares.
Isso significa que a alimentação deve ser pensada de acordo com as necessidades daquela mulher.
Se ela apresenta sintomas intestinais importantes, por exemplo, pode fazer sentido investigar SII, intolerâncias ou outras condições associadas. Se existe alimentação muito restritiva, é importante avaliar se a dieta está fornecendo energia, proteínas, ferro, vitamina B12, folato e outros nutrientes adequadamente.
A estratégia nutricional precisa partir do quadro real da paciente, e não de uma lista universal de alimentos “inflamatórios”.
Quando procurar ajuda para ansiedade ou depressão?
Sentir-se triste, preocupada ou emocionalmente cansada diante de uma doença crônica pode acontecer. O problema é quando esses sentimentos começam a persistir ou interferir na vida.
Alguns sinais merecem atenção:
tristeza ou desânimo persistentes;
preocupação ou medo difíceis de controlar;
perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas;
alterações importantes no sono;
isolamento social;
dificuldade para trabalhar, estudar ou cuidar de si;
sensação frequente de desesperança;
pensamentos de morte ou de não querer mais viver.
Nesse último caso, é importante procurar ajuda imediatamente. No Brasil, o CVV atende pelo número 188, e situações de emergência devem ser encaminhadas para um serviço de urgência.
Não é necessário esperar que o sofrimento emocional fique intenso para buscar ajuda. Psicólogos e psiquiatras podem participar do cuidado da mulher com endometriose quando houver indicação.
Como fica o cuidado na rotina?
A endometriose exige uma abordagem que considere a mulher inteira.
O acompanhamento ginecológico continua sendo fundamental para controlar a doença e seus sintomas. Dependendo do quadro, podem participar também profissionais de outras áreas, como fisioterapia pélvica, psicologia, psiquiatria, nutrição e medicina da dor.
O objetivo não é criar uma lista enorme de tratamentos. É identificar quais problemas estão realmente presentes e quais intervenções fazem sentido para aquela pessoa.
Uma mulher com dor pélvica intensa, insônia, ansiedade e alimentação muito restritiva terá necessidades diferentes de outra que apresenta principalmente sintomas gastrointestinais e preocupação relacionada à fertilidade.

Foto por Gustavo Fring / Pexels
O que realmente sabemos hoje?
A associação entre endometriose, ansiedade e depressão é sustentada por um conjunto consistente de estudos.
Mulheres com endometriose apresentam mais sintomas de ansiedade e depressão do que mulheres saudáveis, e a dor crônica parece ter um papel importante nessa relação. Sono, fadiga, qualidade de vida, sintomas gastrointestinais, função sexual e outros fatores também podem participar dessa experiência.
Ao mesmo tempo, ainda não temos uma explicação única para essa associação.
Inflamação, processamento da dor, estresse, sono, fatores psicológicos e condições sociais provavelmente interagem de diferentes maneiras. A literatura ainda está tentando entender como essas peças se conectam.
Também sabemos que intervenções psicológicas podem melhorar alguns desfechos de saúde mental em mulheres com endometriose, embora os estudos ainda apresentem limitações e não permitam definir uma única abordagem como adequada para todas.
Por isso, falar sobre saúde mental na endometriose não significa atribuir os sintomas à mente.
Significa reconhecer que uma doença que envolve dor, sono, sexualidade, fertilidade, intestino, rotina e qualidade de vida também pode afetar a forma como a mulher se sente emocionalmente.
E esse aspecto merece ser cuidado com a mesma seriedade que os demais.
Concluindo
Endometriose e saúde mental estão relacionadas, mas essa relação é complexa.
Ansiedade e depressão aparecem com maior frequência entre mulheres com endometriose, especialmente quando existe dor crônica e maior impacto da doença na vida cotidiana. Sono ruim, fadiga, sintomas gastrointestinais, dificuldades sexuais, fertilidade e outros fatores também podem contribuir.
A evidência atual favorece uma abordagem multidisciplinar, na qual o controle da dor e dos demais sintomas da endometriose caminhe junto com atenção à saúde mental.
Na alimentação, isso significa evitar soluções simplistas. Uma dieta adequada pode fazer parte do cuidado geral, mas não existe uma dieta universal para tratar ansiedade ou depressão em mulheres com endometriose.
O mais importante é olhar para a mulher que está por trás do diagnóstico: seus sintomas, sua rotina, sua alimentação, seu sono, sua relação com a dor e o impacto que tudo isso está tendo em sua vida.
Referências
VAN BARNEVELD, E. et al. Depression, Anxiety, and Correlating Factors in Endometriosis: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Women's Health. 2022;31(2):219-230. doi:10.1089/jwh.2021.0021.
SZYPŁOWSKA, M.; TARKOWSKI, R.; KUŁAK, K. The impact of endometriosis on depressive and anxiety symptoms and quality of life: a systematic review. Frontiers in Public Health. 2023;11:1230303. doi:10.3389/fpubh.2023.1230303.
DEL PINO-SEDEÑO, T. et al. Effectiveness of psychological interventions in endometriosis: a systematic review with meta-analysis. Frontiers in Psychology. 2024;15:1457842. doi:10.3389/fpsyg.2024.1457842.
DAVENPORT, R. A. et al. Neuroticism and cognitive correlates of depression and anxiety in endometriosis: a meta-analytic review, evidence appraisal, and future recommendations. Journal of Psychosomatic Research. 2024;187:111906. doi:10.1016/j.jpsychores.2024.111906.
CUFFARO, F.; RUSSO, E.; AMEDEI, A. Endometriosis, Pain, and Related Psychological Disorders: Unveiling the Interplay among the Microbiome, Inflammation, and Oxidative Stress as a Common Thread. International Journal of Molecular Sciences. 2024;25(12):6473. doi:10.3390/ijms25126473.
BECKER, C. M. et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open. 2022;2022(2):hoac009.
Comentários
Postar um comentário
Esse texto te fez lembrar de alguma coisa? Conta aqui embaixo — quero saber sua opinião (ou sua dúvida)!