Mulheres com endometriose podem ter maior sensibilidade intestinal? Entenda a relação com os sintomas digestivos

"Eu sinto que minha barriga muda completamente ao longo do mês."

Essa é uma queixa bastante comum entre mulheres com endometriose. Em alguns dias, o abdômen parece normal. Em outros, vem o estufamento, a sensação de pressão, gases, dor, constipação ou diarreia. Para algumas mulheres, até a evacuação pode ser dolorosa.

E aí surge uma dúvida muito compreensível: será que a endometriose está no intestino?

Nem sempre.

A endometriose pode, de fato, atingir o intestino, principalmente o reto e o sigmoide. Nesses casos, podem aparecer sintomas intestinais relacionados à localização e à extensão das lesões. Mas existe outra situação que merece atenção: mulheres com endometriose também podem apresentar maior sensibilidade às distensões e aos estímulos provenientes do trato gastrointestinal, mesmo quando não existe uma lesão de endometriose diretamente no intestino.

Essa diferença é importante porque ajuda a explicar por que os sintomas digestivos podem ser intensos sem que isso signifique, necessariamente, que exista endometriose intestinal.

Neste artigo, vamos entender o que significa ter um intestino mais sensível, qual é a relação entre endometriose e síndrome do intestino irritável, por que os sintomas podem mudar ao longo do ciclo menstrual e onde a alimentação pode entrar nesse cuidado.

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O que significa ter sensibilidade intestinal?

O intestino está constantemente recebendo estímulos.

Ele se distende quando comemos, movimenta seu conteúdo, recebe líquidos e alimentos e produz gases durante a fermentação de determinados carboidratos. Tudo isso faz parte da fisiologia normal da digestão.

O problema não é sentir absolutamente nada.

A questão é como o sistema nervoso interpreta esses estímulos.

Quando existe hipersensibilidade visceral, estímulos que normalmente seriam pouco percebidos podem ser sentidos como desconforto ou dor com maior intensidade. Uma quantidade de gás ou uma determinada distensão intestinal que seria praticamente imperceptível para uma pessoa pode provocar bastante desconforto em outra.

Isso não significa que "é psicológico" ou que a dor não seja real. A sensibilidade visceral envolve a forma como os sinais provenientes dos órgãos são percebidos e processados pelo sistema nervoso.

Estudos experimentais encontraram alterações na sensibilidade visceral em mulheres com endometriose, e esse mecanismo é considerado uma possível explicação para parte da sobreposição entre sintomas da endometriose e da síndrome do intestino irritável.

É importante, porém, não transformar essa hipótese em uma explicação única. A endometriose é uma condição complexa, e os sintomas podem resultar da interação entre diferentes mecanismos.

Endometriose sempre significa endometriose no intestino?

Não.

Essa é uma das primeiras distinções que vale fazer.

A endometriose é definida pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Essas lesões podem estar em diferentes regiões da pelve e, em alguns casos, podem atingir o intestino.

Quando há endometriose intestinal, os sintomas dependem da região acometida e da profundidade da doença. O reto e o sigmoide são os locais mais frequentemente envolvidos quando existe comprometimento colorretal. Constipação, dor para evacuar, sensação de evacuação incompleta, alterações do hábito intestinal e, em alguns casos, sangramento retal podem ocorrer. Esses sintomas também podem apresentar relação com o ciclo menstrual.

Mas há um detalhe muito importante: ter sintomas intestinais não significa automaticamente ter endometriose no intestino.

Em um estudo com mulheres investigadas para endometriose, sintomas gastrointestinais eram muito frequentes, embora o envolvimento intestinal tenha sido identificado em uma parcela bem menor das participantes. Os autores concluíram que os sintomas gastrointestinais não necessariamente refletem a presença de lesões no intestino.

Isso ajuda a entender uma situação que pode ser bastante frustrante: a mulher sente o intestino "reagir" e pode até ter sintomas importantes, mas os exames não mostram necessariamente uma lesão intestinal.

Isso não torna os sintomas menos reais.

Por que a endometriose pode estar relacionada a sintomas intestinais?

Ainda não existe uma única explicação para essa relação.

Provavelmente estamos falando de uma combinação de fatores.

Hipersensibilidade visceral

Como vimos, uma possibilidade é a maior sensibilidade aos estímulos que acontecem dentro do trato gastrointestinal.

Em um estudo que avaliou a sensibilidade visceral de mulheres com diferentes graus de endometriose, foram observados limiares de dor mais baixos durante a distensão retal em comparação com mulheres sem endometriose. Os pesquisadores sugeriram que essa hipersensibilidade poderia contribuir para a intensidade dos sintomas.

O conceito também aparece em revisões sobre dor associada à endometriose, que discutem a participação de sensibilização visceral e central na experiência dolorosa.

Isso não significa que toda mulher com endometriose tenha hipersensibilidade visceral, nem que esse seja o único mecanismo envolvido. É uma peça de um quadro muito mais complexo.

Inflamação e interação entre órgãos da pelve

A pelve não funciona como um conjunto de órgãos completamente independentes.

Útero, ovários, intestino, bexiga e outras estruturas compartilham vias nervosas e estão anatomicamente muito próximas. Alterações inflamatórias e estímulos dolorosos persistentes podem influenciar a forma como os sinais provenientes dessas regiões são percebidos.

É uma das razões pelas quais, em algumas mulheres, sintomas ginecológicos e intestinais aparecem juntos.

Alterações do funcionamento intestinal

A própria endometriose pode estar associada a mudanças no funcionamento do intestino, mas isso não significa necessariamente que exista uma obstrução ou uma lesão intestinal.

Além disso, medicamentos, alimentação, mudanças na rotina, estresse, sono e outras condições gastrointestinais podem modificar os sintomas.

Por isso, tentar encontrar uma única causa para todo episódio de distensão ou alteração intestinal costuma ser simplificador demais.

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Endometriose e síndrome do intestino irritável podem coexistir?

Sim.

E essa associação é uma das evidências mais consistentes quando falamos sobre a relação entre endometriose e sintomas intestinais.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022 reuniu 17 estudos e mais de 96 mil participantes. A análise encontrou aproximadamente três vezes maiores chances de síndrome do intestino irritável entre mulheres com endometriose, em comparação com controles sem a doença. A prevalência agrupada de SII entre mulheres com endometriose foi de aproximadamente 23%, embora os estudos individuais apresentassem resultados bastante diferentes.

Outra revisão sistemática e meta-análise encontrou uma associação semelhante, com estimativa de risco aproximadamente duas a três vezes maior. Os autores, entretanto, destacaram limitações importantes dos estudos, incluindo fatores que podem influenciar os sintomas gastrointestinais, como medicamentos, fase do ciclo menstrual e aspectos psicológicos.

Portanto, é mais correto dizer que endometriose e SII estão associadas e podem coexistir do que afirmar que uma causa diretamente a outra.

Também é importante lembrar que a SII é um diagnóstico clínico. Não existe um exame de sangue ou de imagem que simplesmente "mostre" a síndrome do intestino irritável.

Os sintomas intestinais podem piorar perto da menstruação?

Podem.

O funcionamento gastrointestinal sofre influência das variações hormonais ao longo do ciclo menstrual, e sintomas como alteração do trânsito intestinal, distensão e dor podem apresentar comportamento cíclico.

Em mulheres com endometriose, essa relação pode ser ainda mais perceptível.

Estudos observaram sintomas digestivos que aumentam em determinadas fases do ciclo, incluindo dor para evacuar, constipação e alterações na intensidade do estufamento.

Mas existe uma diferença importante entre um sintoma que piora durante a menstruação e endometriose intestinal.

A presença de sintomas cíclicos pode ser uma informação clínica relevante, mas não determina sozinha onde estão as lesões de endometriose.

Por isso, contar ao ginecologista exatamente quando os sintomas aparecem pode ser muito mais útil do que simplesmente dizer que "o intestino está ruim".

Como saber se o sintoma vem da endometriose ou do intestino?

Na prática, nem sempre é possível separar as duas coisas apenas pela sensação.

Uma mulher pode ter endometriose, SII e endometriose intestinal ao mesmo tempo. Também pode ter endometriose sem lesão intestinal e apresentar sintomas digestivos importantes.

É justamente por isso que uma avaliação individual é tão importante.

Alguns sinais merecem atenção especial, principalmente quando aparecem de forma persistente ou intensa: dor importante durante a evacuação, sintomas claramente relacionados ao ciclo menstrual, sangue nas fezes, alterações importantes e persistentes do hábito intestinal, perda de peso não intencional ou sintomas sugestivos de obstrução intestinal.

A presença desses sintomas não significa automaticamente que exista uma doença intestinal grave. Significa que não é adequado simplesmente atribuí-los à alimentação ou tentar resolvê-los com uma dieta restritiva sem investigação.

A diretriz da ESHRE reconhece sintomas gastrointestinais, como dor para evacuar e alterações intestinais cíclicas, como manifestações que podem estar associadas à endometriose e que devem ser consideradas na avaliação clínica.

E onde entra a alimentação?

É aqui que precisamos ter um pouco de cuidado.

Quando uma mulher percebe que determinado alimento piora o estufamento ou a dor, é natural pensar em eliminá-lo.

Às vezes, uma mudança alimentar realmente ajuda.

Mas isso não significa que exista uma lista universal de alimentos que mulheres com endometriose deveriam evitar.

A alimentação pode influenciar a quantidade de gases, a velocidade do trânsito intestinal, a consistência das fezes e outros aspectos da função gastrointestinal. Em mulheres que também apresentam SII ou sintomas semelhantes, estratégias alimentares específicas podem ser consideradas.

Um exemplo é a dieta Low FODMAP, que possui evidências para o manejo da SII. No entanto, a evidência específica para mulheres com endometriose ainda é pequena.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou apenas cinco estudos clínicos avaliando Low FODMAP especificamente em mulheres com endometriose. Houve resultados promissores para sintomas como distensão, dor, constipação e sintomas semelhantes aos da SII, mas os autores destacaram que a quantidade de estudos ainda é pequena e que existem limitações importantes no desenho de vários deles.

Isso muda bastante a forma como essa estratégia deve ser apresentada.

Não é correto dizer que toda mulher com endometriose deveria fazer Low FODMAP.

Pode fazer sentido considerar a estratégia para algumas mulheres com sintomas gastrointestinais importantes, especialmente quando existe suspeita ou diagnóstico de SII, mas ela deve ser individualizada e, quando utilizada, não deve se transformar em uma restrição permanente.

O que a ciência mostra?

Hoje, podemos afirmar algumas coisas com razoável segurança.

Primeiro: sintomas gastrointestinais são frequentes em mulheres com endometriose e podem incluir distensão abdominal, gases, dor, constipação, diarreia, náusea e alterações na evacuação.

Segundo: a endometriose está associada a uma maior ocorrência de síndrome do intestino irritável. As meta-análises disponíveis apontam para uma associação consistente, embora não permitam concluir que a endometriose seja a causa direta da SII.

Terceiro: existe evidência de que algumas mulheres com endometriose apresentam maior sensibilidade visceral. Esse mecanismo pode contribuir para a intensidade da dor e do desconforto diante de estímulos intestinais.

Quarto: sintomas digestivos não significam necessariamente endometriose intestinal. Mulheres sem comprometimento intestinal podem apresentar queixas gastrointestinais importantes.

Quinto: a relação entre endometriose, microbiota, inflamação, hormônios, sistema nervoso e sintomas gastrointestinais é uma área ativa de pesquisa. Existem hipóteses biologicamente plausíveis, mas algumas dessas relações ainda não estão suficientemente estabelecidas para justificar recomendações alimentares específicas.

E existe uma última informação importante: a evidência sobre intervenções alimentares específicas para endometriose ainda é muito menor do que a evidência sobre alimentação e SII. A revisão sistemática de 2026 sobre Low FODMAP em endometriose é um bom exemplo disso: os resultados são interessantes, mas apenas cinco estudos preencheram os critérios de inclusão.

Aplicação prática: o que você pode fazer se tem endometriose e sintomas intestinais?

Se o seu intestino costuma piorar junto com a endometriose, vale começar observando o padrão dos sintomas.

Em vez de anotar apenas "meu intestino piorou", tente perceber:

Quando acontece? Antes, durante ou depois da menstruação?

O que acontece? É principalmente estufamento, dor, gases, constipação, diarreia ou dor para evacuar?

Existe repetição? O mesmo padrão aparece em vários ciclos?

Há relação com refeições? Algum tipo de refeição parece influenciar os sintomas?

Como está o funcionamento intestinal no restante do mês?

Essas informações podem ser muito úteis na consulta.

Também é importante não começar eliminando vários alimentos ao mesmo tempo. Quando leite, trigo, leguminosas, frutas, verduras e vários outros alimentos são retirados de uma vez, fica praticamente impossível saber o que realmente estava relacionado aos sintomas.

E, dependendo do caso, uma restrição extensa pode reduzir desnecessariamente a variedade da alimentação.

Se houver indicação de uma estratégia como a Low FODMAP, ela deve ser feita com planejamento, incluindo posteriormente a reintrodução dos alimentos e a personalização da dieta. O objetivo não é permanecer em uma alimentação extremamente restritiva.

Mais importante ainda: alimentação é apenas uma parte do cuidado da endometriose. Sintomas persistentes ou importantes precisam ser avaliados dentro do quadro completo, considerando tratamento ginecológico, sintomas gastrointestinais, medicamentos, rotina, sono, atividade física e outros fatores relevantes.

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Concluindo

Sim, mulheres com endometriose podem apresentar maior sensibilidade intestinal e sintomas gastrointestinais mesmo quando não existe uma lesão de endometriose diretamente no intestino.

A relação parece envolver diferentes mecanismos, incluindo hipersensibilidade visceral, processos inflamatórios e a interação entre estruturas pélvicas e o sistema nervoso. Além disso, mulheres com endometriose apresentam maior frequência de síndrome do intestino irritável, o que ajuda a explicar parte da sobreposição dos sintomas.

Mas existe uma distinção que vale guardar: ter sintomas intestinais não é o mesmo que ter endometriose intestinal.

O intestino pode ser sensível sem estar comprometido por uma lesão de endometriose.

E isso também muda a maneira de pensar sobre alimentação. Em vez de procurar uma lista de alimentos que toda mulher com endometriose deveria retirar, faz mais sentido entender quais sintomas estão presentes, quando aparecem, quais fatores parecem influenciá-los e se existe uma condição gastrointestinal associada que também precisa ser abordada.

Para algumas mulheres, uma estratégia alimentar específica pode ajudar. Para outras, a prioridade será diferente.

O objetivo não deveria ser ter a dieta mais restritiva possível. É encontrar uma abordagem que faça sentido para o seu intestino, a sua endometriose e a sua vida real.

Referências científicas

  1. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open. 2022;2022(2):hoac009.

  2. Nabi MY, Nauhria S, Reel M, et al. Endometriosis and irritable bowel syndrome: A systematic review and meta-analyses. Journal of Minimally Invasive Gynecology. 2022.

  3. Schomacker M, et al. A systematic review and meta-analysis of the associations between endometriosis and irritable bowel syndrome.

  4. van der Zanden M, et al. Visceral hypersensitivity in endometriosis: a new target for treatment? Journal of Obstetrics and Gynaecology Research.

  5. Maroun P, Cooper MJ, Reid GD, Keckstein J. Relevance of gastrointestinal symptoms in endometriosis. Journal of Obstetrics and Gynaecology Research. 2009.

  6. Watrowski R, et al. Low-FODMAP Diet for Gastrointestinal Symptoms in Endometriosis: A Systematic Review. Nutrients. 2026.

  7. Endometriosis Is Associated With Higher Healthcare Utilization and Upper Gastrointestinal Symptoms. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2024.

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