Ferritina: o que ela diz sobre seus estoques de ferro

Entenda o que é ferritina, como ela mostra seus estoques de ferro, a relação com anemia e o que mudou nos pontos de corte.

Você provavelmente já ouviu falar em ferritina ao olhar um exame de sangue. Mas talvez ainda exista uma dúvida: afinal, o que esse número significa?

A ferritina é um dos principais exames utilizados para avaliar os estoques de ferro do organismo. E isso é importante porque a deficiência de ferro pode começar antes que a anemia apareça no hemograma.

Essa diferença costuma passar despercebida. Uma pessoa pode estar com hemoglobina preservada e, ao mesmo tempo, apresentar redução dos estoques de ferro. Dependendo do caso, isso pode estar relacionado a sintomas como cansaço, menor tolerância ao exercício e dificuldade de concentração.

Em 2026, a American Society of Hematology (ASH) publicou novas diretrizes para o diagnóstico da deficiência de ferro e passou a recomendar pontos de corte de ferritina mais altos em algumas populações. A mudança reforça justamente a importância de identificar a deficiência de ferro antes que ela evolua para anemia.

Neste artigo, você vai entender o que é ferritina, o que significa ter estoques de ferro baixos, qual é a relação entre deficiência de ferro e anemia, quando a ferritina pode enganar e o que mudou nas recomendações mais recentes.

Foto por Los Muertos Crew / Pexels

O que é ferritina?

A ferritina é uma proteína que armazena ferro dentro das células.

Uma maneira simples de entender é pensar no ferro como um recurso que o organismo precisa manter disponível. Parte dele está sendo utilizada e outra parte fica armazenada para ser utilizada quando necessário.

A ferritina funciona como um dos principais indicadores dessa reserva.

Quando os estoques de ferro estão adequados, existe uma quantidade maior de ferro armazenada. Quando o organismo começa a ficar sem ferro, esses estoques podem diminuir progressivamente.

Por isso, a ferritina é considerada um dos melhores marcadores indiretos dos estoques de ferro, especialmente quando não há inflamação importante.

Isso explica por que ela pode trazer uma informação diferente do hemograma.

Para que o corpo precisa de ferro?

O ferro participa de várias funções do organismo, mas uma das mais conhecidas é a produção de hemoglobina.

A hemoglobina é a proteína presente nas hemácias que transporta oxigênio pelo corpo.

Mas o papel do ferro não termina aí. Ele também participa de processos relacionados à produção de energia, síntese de DNA e funcionamento de diferentes tecidos.

Quando a ingestão, absorção ou disponibilidade de ferro não acompanha as necessidades do organismo, os estoques podem começar a diminuir.

Se essa situação persiste, a deficiência pode avançar até comprometer a produção adequada de hemoglobina e resultar em anemia por deficiência de ferro.

Ferritina baixa significa anemia?

Não necessariamente.

Essa é uma das informações mais importantes para entender a ferritina.

A deficiência de ferro pode acontecer em etapas. Primeiro, os estoques podem diminuir. Em uma fase inicial, a hemoglobina ainda pode estar preservada.

Com a progressão da deficiência, pode haver redução da produção de hemoglobina e, então, surgir a anemia.

É por isso que podemos encontrar situações diferentes:

estoques de ferro reduzidos → deficiência de ferro sem anemia → anemia por deficiência de ferro

Esse processo não acontece exatamente da mesma maneira em todas as pessoas, mas ajuda a entender por que olhar apenas para a hemoglobina pode não ser suficiente para avaliar o estado do ferro.

As diretrizes da ASH de 2026 reforçam que a deficiência de ferro deve ser identificada independentemente da presença de anemia.

E o que acontece quando a deficiência de ferro evolui para anemia?

Anemia é definida pela redução da concentração de hemoglobina no sangue abaixo do ponto de corte adequado para aquela população e situação fisiológica.

Ela também pode apresentar diferentes graus de intensidade.

Para mulheres adultas que não estão grávidas, a classificação da Organização Mundial da Saúde considera anemia leve quando a hemoglobina está entre 11,0 e 11,9 g/dL, moderada entre 8,0 e 10,9 g/dL e grave abaixo de 8,0 g/dL.

Na gestação, os pontos de corte são diferentes e também variam conforme o trimestre.

A gravidade da anemia importa porque quanto maior a redução da hemoglobina, maior tende a ser o impacto na capacidade de transporte de oxigênio.

Mas existe um ponto anterior que merece atenção: não precisamos esperar a anemia aparecer para investigar uma possível deficiência de ferro.

O que mudou nos pontos de corte da ferritina?

Essa é uma das novidades mais importantes de 2026.

Durante muitos anos, o ponto de corte de 15 ng/mL foi amplamente utilizado para definir deficiência de ferro em adultos aparentemente saudáveis. A Organização Mundial da Saúde ainda utiliza esse valor em suas recomendações para adultos sem inflamação.

A nova diretriz da ASH propôs uma abordagem diferente.

Para adultos, excluindo gestantes, pessoas que menstruam e indivíduos com inflamação, a ASH sugere ferritina ≤30 ng/mL como ponto de corte para deficiência de ferro, em vez de ≤15 ng/mL.

Para pessoas que menstruam, a recomendação também considera ferritina ≤30 ng/mL.

Em alguns grupos de maior risco, como pessoas com sangramento menstrual intenso, a diretriz considera que um limite de até 50 ng/mL pode ser apropriado.

Na gestação, a ASH sugere ≤30 ng/mL para identificar deficiência de ferro. Em gestantes que também apresentam anemia, um limite de até 50 ng/mL pode ser considerado.

Isso não significa que toda pessoa com ferritina abaixo de 50 ng/mL tenha deficiência de ferro. O contexto continua sendo fundamental.

A própria diretriz ressalta que a certeza das evidências é limitada em várias dessas recomendações e que ainda são necessários estudos que comparem diferentes pontos de corte com desfechos clínicos relevantes.

Portanto, a mudança representa principalmente uma tentativa de identificar mais precocemente pessoas que podem estar com deficiência de ferro, em vez de esperar que os estoques estejam muito reduzidos ou que a anemia apareça.

Por que esse assunto é especialmente importante para mulheres?

As mulheres que menstruam apresentam uma fonte recorrente de perda de ferro: o sangramento menstrual.

Quando o fluxo é intenso, a quantidade de ferro perdida pode ser relevante.

Nem sempre a mulher percebe seu sangramento como excessivo. Trocar absorventes ou tampões com muita frequência, ter sangramento por mais de sete dias, precisar trocar o produto durante a noite ou apresentar coágulos grandes podem ser sinais de sangramento menstrual intenso.

Quando existe perda de sangue frequente, a alimentação precisa fornecer ferro suficiente para acompanhar essa demanda. Em algumas situações, porém, apenas aumentar o consumo alimentar não é suficiente e é necessário investigar e tratar a causa da deficiência.

Outras situações também aumentam a atenção para o ferro, como gestação, doação frequente de sangue, dietas muito restritivas, algumas doenças gastrointestinais e condições que prejudicam a absorção de nutrientes.

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Quais sintomas podem aparecer quando o ferro está baixo?

Os sintomas dependem da intensidade e da duração da deficiência e também variam bastante entre as pessoas.

Cansaço é um dos sintomas mais conhecidos, mas não é específico da deficiência de ferro. Sono inadequado, estresse, alterações hormonais, alimentação insuficiente e diversas condições de saúde também podem causar fadiga.

Por isso, não é adequado olhar para um sintoma isolado e concluir que existe deficiência de ferro.

Em algumas pessoas, podem aparecer redução da tolerância ao exercício, dificuldade de concentração, fraqueza, falta de ar aos esforços ou dor de cabeça, especialmente quando a deficiência já está acompanhada de anemia.

Algumas pessoas também apresentam desejos incomuns de consumir substâncias sem valor nutricional, como gelo, quadro conhecido como pica. Alterações relacionadas às pernas inquietas também podem estar associadas à deficiência de ferro.

Esses sinais não fazem diagnóstico sozinhos, mas podem ser pistas importantes quando aparecem junto de alterações nos exames e de fatores de risco.

A ferritina pode estar normal mesmo com deficiência de ferro?

Pode.

E esse é um dos principais cuidados na interpretação do exame.

A ferritina também funciona como uma proteína de fase aguda. Isso significa que seus níveis podem aumentar em situações de inflamação ou infecção.

Nesse contexto, uma pessoa pode apresentar deficiência de ferro e, ainda assim, ter uma ferritina que não parece tão baixa.

Por isso, em pessoas com inflamação, a ferritina precisa ser interpretada junto de outros parâmetros.

A ASH recomenda considerar a ferritina em conjunto com a saturação de transferrina em adultos com anemia associada à inflamação. Nessa situação, ferritina abaixo de 100 ng/mL ou saturação de transferrina abaixo de 20% podem indicar deficiência de ferro, sempre considerando o quadro clínico.

Isso é particularmente relevante em condições inflamatórias crônicas, nas quais a interpretação da ferritina isoladamente pode ser insuficiente.

A Organização Mundial da Saúde também orienta que marcadores de inflamação sejam considerados na interpretação da ferritina.

Quais exames costumam ser avaliados junto com a ferritina?

A ferritina é importante, mas não precisa ser analisada sozinha.

O hemograma ajuda a avaliar a hemoglobina e outras características das células do sangue. A saturação de transferrina mostra quanto do ferro disponível está efetivamente ligado à transferrina, proteína responsável pelo transporte de ferro no sangue.

Dependendo da situação clínica, o profissional pode solicitar outros exames para compreender melhor o metabolismo do ferro e investigar possíveis causas da deficiência.

O mais importante é que o resultado seja interpretado em conjunto com a história da paciente.

Uma ferritina de determinado valor pode ter significados diferentes dependendo de haver ou não anemia, inflamação, gestação, sangramento menstrual intenso ou alguma condição que prejudique a absorção.

O que a ciência mostra sobre ferritina e sintomas?

Existe uma evidência interessante sobre deficiência de ferro sem anemia: algumas mulheres com estoques baixos de ferro e hemoglobina preservada apresentam fadiga, e alguns ensaios clínicos encontraram melhora desse sintoma após reposição de ferro.

Uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados encontrou redução da fadiga autorreferida em adultos com deficiência de ferro sem anemia tratados com ferro. No entanto, não houve melhora consistente em medidas objetivas de capacidade física.

Ensaios clínicos em mulheres menstruadas com ferritina baixa e sem anemia também encontraram redução da fadiga após suplementação de ferro.

Isso é relevante, mas precisa ser interpretado com cuidado.

Cansaço é um sintoma muito comum e possui inúmeras causas. A presença de fadiga não significa automaticamente deficiência de ferro, e a evidência disponível ainda não permite estabelecer um único valor de ferritina que explique os sintomas de todas as pessoas.

A nova diretriz da ASH reconhece justamente essa incerteza. Os pontos de corte foram escolhidos para melhorar a identificação da deficiência, mas ainda faltam estudos que comparem diretamente diferentes limites de ferritina e seus efeitos sobre desfechos importantes para as pacientes.

E a alimentação? Dá para melhorar os estoques de ferro com a dieta?

A alimentação tem um papel importante no fornecimento de ferro.

Carnes, peixes e frutos do mar fornecem ferro heme, que apresenta maior biodisponibilidade. Alimentos vegetais como feijões, lentilhas, grão-de-bico, tofu, sementes e algumas folhas também fornecem ferro, na forma não heme.

A absorção do ferro não heme pode ser favorecida pela presença de vitamina C na refeição. Por outro lado, alguns componentes da alimentação, como fitatos e determinados polifenóis, podem reduzir sua absorção.

Isso não significa que seja necessário excluir café, chá ou outros alimentos da rotina. A alimentação real é feita de refeições completas, e a absorção de nutrientes depende do conjunto da dieta.

Para mulheres vegetarianas e veganas, vale ter atenção especial à adequação de ferro, principalmente quando existem outros fatores de risco para deficiência.

Mas existe uma diferença importante entre prevenir deficiência e tratar uma deficiência já identificada.

Quando os estoques estão reduzidos, a alimentação pode fazer parte da estratégia, mas algumas pessoas precisarão de reposição de ferro prescrita e acompanhamento dos exames.

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O que fazer se sua ferritina estiver baixa?

O primeiro passo é entender por que ela está baixa.

A deficiência pode estar relacionada a uma combinação de fatores: ingestão insuficiente, aumento das necessidades, perdas de sangue ou redução da absorção.

Em mulheres, o sangramento menstrual intenso é uma causa especialmente importante. Na gestação, as necessidades de ferro aumentam. Algumas doenças gastrointestinais também podem interferir na absorção ou causar perdas de sangue.

Por isso, simplesmente tomar ferro sem investigar a causa pode não resolver o problema.

A dose e a forma de reposição também dependem da situação. Suplementos de ferro podem causar efeitos gastrointestinais, como náusea, constipação, dor abdominal e alteração do hábito intestinal. Além disso, a reposição deve ser acompanhada para verificar se os estoques e, quando necessário, a hemoglobina estão respondendo adequadamente.

Em casos de anemia por deficiência de ferro sem causa evidente, especialmente em determinadas faixas etárias e situações clínicas, a investigação médica da origem da perda de ferro é fundamental.

O que realmente precisamos lembrar sobre a ferritina?

A ferritina é uma janela para os estoques de ferro do organismo.

Ela ajuda a identificar uma deficiência que pode existir antes da anemia e, por isso, ganhou ainda mais importância nas recomendações recentes.

Para mulheres que menstruam, essa avaliação merece atenção especial quando existe sangramento intenso, cansaço persistente, alimentação com baixo consumo de ferro, gestação ou outras condições que aumentem o risco de deficiência.

Os novos pontos de corte da ASH de 2026 representam uma mudança importante na forma de reconhecer a deficiência de ferro, mas ainda existem incertezas sobre alguns limites e sobre quais pessoas se beneficiam mais de cada estratégia.

Na prática, o resultado da ferritina precisa ser interpretado junto com o hemograma, outros marcadores de ferro quando indicados, sintomas, histórico menstrual, alimentação, presença de inflamação e condições de saúde.

Mais do que decorar um número, o importante é entender o que aquele número está contando sobre o seu organismo.

Referências

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